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À semelhança do Brasil meridional, o Nordeste tem tradição poética.
Assim, o próprio contexto invoca a atenção dos leitores. Como o
Brasil meridional, com as referências solares de Cruz e Sousa, em Santa
Catarina; Helena Kolody no Paraná; Mário Quintana e Carlos Nejar, no
Rio Grande do Sul, o Nordeste traz-nos à lembrança Augusto dos Anjos,
João Cabral de Melo, Ferreira Gullar. De modo que quando surge um poeta
nessas plagas, procuramos identificar suas luzes, se são próprias, se
recebem a luminosidade de outras forças, extrapoéticas, extraliterárias,
como acontece muito no Brasil.
Outros arquipélagos literários
também apresentam seus sóis. Mas há uma diferença sutil. Enquanto
regiões como a Bahia e Minas Gerais articulam sua posição no cenário
nacional, revelando sua produção, no Nordeste e no Sul alguns poetas não
são devidamente conhecidos devido a um traço comum: excesso de modéstia.
A falta da substância em questão jamais mata, talvez apenas irrite,
mas o excesso pode ser letal.
Guilhermino César, no Rio Grande
do Sul, e Alberto Cunha Melo, em Pernambuco, exemplificam o que quero
dizer. O primeiro mereceu um poema de ninguém menos do que Carlos
Drummond de Andrade. O segundo não é ignorado, nem deixa de ser
apreciado por quem conhece sua obra poética. Mas ainda é muito
ignorado, não só por quem tem repertório suficiente para fruir seus
versos, como por muitos que deveriam conhecer seus livros por obrigação,
já que são pagos, em universidades públicas ou privadas, para ensinar
literatura.
Espero que esta edição
de O cão de olhos amarelos seja um recomeço, um reflorescer, um
reverdejar para Alberto da Cunha Melo. Ele não perde nada se não o
lermos. Aliás, perde. Perde, sim, todo escritor perde muito se não
tiver os leitores que faz por merecer, como é o caso. Contudo as
maiores perdas são dos leitores que foram impedidos de o conhecer e
ler.
É autor de
versos encantadores. Tenho vontade de sair cantando ou dançando,
chorando ou mugindo, quando leio Alberto da Cunha Melo. Sua poesia, pelo
arranjo perfeito da melodia das palavras, pelo inusitado dos ritos, que
irrompem abruptamente no meio da estrofe, convida-nos a fazer alguma
coisa.
Vivemos tempo de muitas
dispersões. Nossos ouvidos são abalroados todos os dias por sons
furiosos, estridentes. Nossos olhos são obrigados a ver coisas que teríamos
preferido ignorar, pois maculam a paisagem interior, que deve ser
preservada como se fosse um santuário onde guardamos nossos bens
indispensáveis e onde educamos nosso olhar.
Paremos. Fechemos os olhos após
a leitura dos versos de Alberto da Cunha Melo e degustemos a beleza, a
ética, os projetos de uma existência diferente que eles nos suscitam.
Como prosador, só posso ser
prosaico, mas não quero deixar de proclamar minha enfeitiçada admiração
por seus versos, suas tramas e, claro, a deliciosa sobremesa que é
apreciar o tom narrativo e filosófico de tantos de seus poemas.
Ele nos ensina a pensar
e a sentir de novos modos, a partir de outros mirantes. Ele nos faz
gostar de ler, de escrever, de apreciar com redobrado gosto o convívio
intelectual com aqueles que descobriram a essência transcendental da
palavra criadora.
Devo a descoberta desse poeta à
pergunta que me fez há alguns anos o jornalista, romancista e também
poeta José Nêumanne Pinto, sempre atento a tudo no Brasil: “Mas,
como? Você não leu ainda Alberto da Cunha Melo?”.
Li e saí avisando aos outros, pois é
natural que partilhemos o que é bom.
Deonísio
da Silva é doutor em Letras pela USP e diretor do Curso de Comunicação
da Universidade Estácio de Sá. Acesso ao Porto Deonísio, www.deonisio.com.br,
páginas virtuais desse escritor por este ícone:
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