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Alberto da Cunha Melo começa seu livro O Cão de olhos amarelos invocando os enigmas do tempo e a voracidade do homem no poema O presente. Seus versos estão impregnados de filosofia. Força o leitor a refletir sobre as peculiaridades desse nosso tempo e do que inquieta a humanidade em sua condição. Alguns textos lembram daquela dor do existir, com versos que cortam feito faca qualquer sentido ou idéia acomodada. Mas noutros ele traz doses homeopáticas de alegria enquanto não chega a morte. A prontidão contra injustiças sem perspectivas de mudanças são apresentadas em versos irônicos, sarcásticos, com humor duro e ferino. O poeta Alberto da Cunha Melo é um dos grandes da poesia brasileira, que não espera ser reconhecido como celebridade, mas escreve como se esse ato fosse seu próprio alimento, seu fôlego vital. Ele está completando 40 anos de poesia com o lançamento de Cão, na próxima terça-feira, a partir das 19h, na Livraria Cultura do Paço Alfândega.
Do primeiro livro, Círculo cósmico de 1966 até agora, Cunha Melo já publicou mais de 40 livros individuais e antologias internacionais e nacionais, entre elas Os cem melhores poetas brasileiros do século XX e 100 Anos de Poesia- Um panorama da poesia brasileira no século XX. Enquanto tece seus versos o escritor tenta enganar o tempo maçante do trabalho como funcionário público, mas quase sem esperança de que o ofício de poeta garanta com dignidade a sobrevivência do corpo.
Qual a síntese deste Cão de olhos amarelos. O livro está dividido em duas partes com poemas de outras épocas? Quais são?
Na verdade eu só queria publicar, como livro, a primeira parte, que é uma paráfrase formal minha, da Renka (ou Renga), uma antiga forma fixa de poesia japonesa. Daria um volume esbelto. Mandei os originais à editora A Girafa, de São Paulo, e ela me pediu que engordasse o livro com inéditos. Foi o que fiz, complementando o título com & outros poemas inéditos. Foram acrescentadas as partes seguintes: poemas na forma a que chamei de Retranca, poemas do livro Noticiário II; do livro Poemas 83/84, do livro Poemas 81, do livro Poemas Finais, e poemas não incluídos em livro, da minha fase de octossílabos brancos.
Quanto tempo levou para compor esta obra?
Uns dois anos. O trabalho de arte levou os poemas a várias versões, muitos poemas acabaram sem nada da versão original. Sou meio construtivista em poesia e quando escrevo só penso num único leitor: eu mesmo. Faço uma poesia antipalco e pró-catacumba.
Quais as vantagens e desvantagens de publicar por uma editora grande, como A Girafa que edita Cão, e de forma independente como foi Yacala?
Prefiro por uma editora. A primeira edição de arte do meu livro Yacala, independente, colocou em xeque meu resto de orgulho, pois fiz subscrições para financiá-lo. Fui de pessoa a pessoa, vendendo a pequena edição (200 exemplares).
Como funciona o seu processo de criação?
Qualquer coisa pode despertar em mim a idéia de escrever o poema. Faço, sem demora a primeira versão. Quando iniciei a escrever eu começava logo a trabalhá-lo e isto poderia levar a poucas ou muitas versões. Hoje, não, depois da primeira, começo a bolar na cabeça o diagrama do livro completo e vou escrevendo livremente as primeiras versões e juntando-as (sempre levando em conta o livro o livro que escolhi escrever). Com um volume de primeiras versões, aí começo o enorme trabalho de acabamento, uma a uma. É um inferno.
"O cão de olhos amarelos é um estranho personagem como tantos que vivem emdiáspora pelas planícies cáusticas da poesia de Alberto da Cunha Melo", assinala Hidelberto Barbosa Filho no posfácio do livro. Quais são as figuras que povoam esta obra?
Mulheres, homens e mulheres civilizados, primitivos animais, quase todos em situação de ameaça. Todo livro, por mais objetivo que se pretenda é autobiográfico. Não importa que eu fale em segunda ou terceira pessoa. Assim, autobiográfica é a prosa de Kafka e a poesia de João Cabral. Os traços podem estar no conteúdo ou na forma, pouco importa.
Os críticos, os que conhecem sua obra, colocam seu trabalho nos lugares mais altos da poesia brasileira. Como você avalia esse juízo?
Não posso responder a esta pergunta sem gabar-me ou ficar confuso. Sempre exigi o máximo de mim. O reconhecimento da crítica é o máximo a que pode aspirar um poeta erudito em nossos dias. Já se foi o tempo em que um grande poeta era uma celebridade, como Bilac, que era esperado pelos leitores no porto do Rio.
Muitas pessoas do círculo literário apontam sua extrema modéstia como um dos fatores que dificultam sua projeção?
Não sou modesto, mas vaidoso. Mas, minha formação sociológica ajuda-me a compreender os limites da poesia, hoje. Se depender de mim forçar as portas da mídia, para lutar por uma projeção impossível, elas continuarão intocáveis. Os dois únicos poetas eruditos de projeção, atualmente, são Thiago de Mello e Ferreira Gullar. Quantos brasileiros, apesar disso, os conhecem? Vimos ao mundo, os poetas (ditos) eruditos, nati-mortos, nascemos como os trabalhadores, para o esquecimento.
Você pertence à Geração 65, grupo que depois seguiu um caminho individual. Mas do ponto de vista do mercado, da sua estréia para cá como se reconfigurou o mercado para a poesia?
Já o disse outros e digo-o, agora: a poesia não é uma mercadoria. O mercado continua o mesmo: sempre colocou a poesia na lanterninha dos planos editoriais e na última prateleira das livrarias. O poeta e amigo José Nêumanne Pinto, ele mesmo também poeta e dos bons, comandando agora a A Girafa Editora quermudar essa situação, mas mudará sozinho?
De que vale fazer poesia no Brasil?
Não vale para ganhar dinheiro, nem celebridade, vale por si mesma, autotelicamente. É uma instituição social multissecular que vem dos grafismos parietais dos fundos das cavernas. É uma arte do tempo e não do espaço, como querem algumas correntes poéticas do Brasil.
Osman Lins dizia que um trabalho burocrático é um atraso na vida de um escritor. Você é funcionário público, que bate ponto todos os dias. Como conciliar essas duas facetas?
O grande Osman tinha razão. O trabalho burocrático é uma irritação e um roubo de precioso tempo para a escrita. Permita, Ivana, que cite um trecho de velho poema: "a minha alegria na Terra/ é só ler e olhar a cidade".
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Diário de Pernambuco, domingo, 07.05.2006
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