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Como nos confessa o próprio autor, O Cão de Olhos Amarelos & Outros Poemas Inéditos inclui, em sua primeira parte, um conjunto de poemas paralelísticos que 'surgiu de uma observação de Bruno Tolentino sobre a ausência de repetições em minha obra, sempre tangenciando a fala, em que só esporadicamente apareciam raros poemas anafóricos'. O paralelismo é uma figura de retórica que remete à poesia dos povos arcaicos. Esse tipo de poema, que foi assimilado por Gil Vicente e que se prolongou até nossos dias na tradição galaico-portuguesa, teve entre nós usuários da estirpe de João Cabral de Melo Neto. E volta agora pelas mãos habílimas do poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo, que prefere chamá-los de 'renkas', uma forma já extinta da poesia japonesa, mas que nada mais é, em última análise, do que a canção paralelística.
O risco dessa experiência poética poderia ser o da gratuidade formal, mas o que se vê em O Cão é o contrário, ou seja, a orgânica adequação entre o que pretendeu dizer o poeta e a forma que escolheu para fazê-lo, o que lhe permitiu desenvolver uma expressão verbal dura e contundente, a um tempo cortante e todavia compassiva, que é característica, aliás, de seu estilo realista, na esteira do realismo antilírico e da fanopéia deste outro grande poeta pernambucano que é João Cabral. Mas não se deve entender este último apenas como mais um epígono do autor de Morte e Vida Severina, e sim como um autêntico herdeiro daquele estilo das facas, no qual a concisão expressiva se alia à mais funda emoção e às preocupações sociais, como se vê em poemas como Balada, Hugo, Mestre Pedreiro, Gonçalo, Lena, e a composição que dá título ao volume.
Há em Cunha Melo um rigor que não vemos em outros poetas de sua geração, uma dignidade de linguagem e de intenções no mínimo raras. Tem assim razão Alfredo Bosi quando alerta, nas orelhas do livro, que este se vale 'da retomada frásica e rítmica com vistas a outro afeito, a rigor oposto ao da melopéia encantatória', o que nos leva à conclusão de que 'esse trabalho formal entre mágico e cognitivo não é um mecanismo autodecorativo, para desfrute da linguagem pela linguagem', dirigindo-se, ao contrário, 'para um núcleo rico de dimensões existenciais'.
Não ficam atrás os admiráveis poemas inéditos, em octossílabos rimados, da segunda parte do livro, que obedecem a uma forma fixa, cuja rentabilidade expressiva é espantosa. Provam-no poemas como Ecce Homo, Súplica e Recife Revisto. Enfim, em que o autor tangencia, um pouco à maneira de Kafka, o que há de grotesco e absurdo nas situações mais triviais da existência humana. E forçoso é concordar com o crítico paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que,
no posfácio, lembra esse diálogo da poesia de Cunha Melo com a insólita ficção do autor de O Processo, visível sobretudo no 'recorte estilístico de uma escrita quase clara, concisa, solar, embora tocando em poços profundos e nas dores patéticas da alma humana'.
Como em livros anteriores, Cunha Melo não cede aos modismos e sua poesia reflete, acima de tudo, busca pungente dos estratos mais profundos de sua alma atormentada.
Há nele um pouco daquele terror que antecede a glória, tal como o vemos em quase todos os poemas que T.S. Eliot escreveu antes de sua conversão ao catolicismo anglicano. Mas é apenas uma lembrança talvez inoportuna, pois a poética do autor de O Cão de Olhos Amarelos não nos acena com nenhuma futura trégua. Antes nos promete mais crueza e contundência, como se em sua aspereza polifônica residisse o próprio cerne obstinado e irredento da alma nordestina.
(SERVIÇO)O Cão de Olhos Amarelos & Outros Poemas Inéditos, Alberto da Cunha Melo, Girafa, 256 págs., R$ 29
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