Por Ivan Junqueira

De expressão verbal contundente, poemas de Alberto da Cunha Melo aliam concisão expressiva à mais funda emoção 

                            © O Estado de S. Paulo, 26 (domingo) de novembro de 2006, Caderno 2

 


Como nos confessa o próprio autor, O Cão de Olhos Amarelos & Outros Poemas Inéditos inclui, em sua primeira parte, um conjunto de poemas paralelísticos que 'surgiu de uma observação de Bruno Tolentino sobre a ausência de repetições em minha obra, sempre tangenciando a fala, em que só esporadicamente apareciam raros poemas anafóricos'. O paralelismo é uma figura de retórica que remete à poesia dos povos arcaicos. Esse tipo de poema, que foi assimilado por Gil Vicente e que se prolongou até nossos dias na tradição galaico-portuguesa, teve entre nós usuários da estirpe de João Cabral de Melo Neto. E volta agora pelas mãos habílimas do poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo, que prefere chamá-los de 'renkas', uma forma já extinta da poesia japonesa, mas que nada mais é, em última análise, do que a canção paralelística.

O risco dessa experiência poética poderia ser o da gratuidade formal, mas o que se vê em O Cão é o contrário, ou seja, a orgânica adequação entre o que pretendeu dizer o poeta e a forma que escolheu para fazê-lo, o que lhe permitiu desenvolver uma expressão verbal dura e contundente, a um tempo cortante e todavia compassiva, que é característica, aliás, de seu estilo realista, na esteira do realismo antilírico e da fanopéia deste outro grande poeta pernambucano que é João Cabral. Mas não se deve entender este último apenas como mais um epígono do autor de Morte e Vida Severina, e sim como um autêntico herdeiro daquele estilo das facas, no qual a concisão expressiva se alia à mais funda emoção e às preocupações sociais, como se vê em poemas como Balada, Hugo, Mestre Pedreiro, Gonçalo, Lena, e a composição que dá título ao volume.

Há em Cunha Melo um rigor que não vemos em outros poetas de sua geração, uma dignidade de linguagem e de intenções no mínimo raras. Tem assim razão Alfredo Bosi quando alerta, nas orelhas do livro, que este se vale 'da retomada frásica e rítmica com vistas a outro afeito, a rigor oposto ao da melopéia encantatória', o que nos leva à conclusão de que 'esse trabalho formal entre mágico e cognitivo não é um mecanismo autodecorativo, para desfrute da linguagem pela linguagem', dirigindo-se, ao contrário, 'para um núcleo rico de dimensões existenciais'.

Não ficam atrás os admiráveis poemas inéditos, em octossílabos rimados, da segunda parte do livro, que obedecem a uma forma fixa, cuja rentabilidade expressiva é espantosa. Provam-no poemas como Ecce Homo, Súplica e Recife Revisto. Enfim, em que o autor tangencia, um pouco à maneira de Kafka, o que há de grotesco e absurdo nas situações mais triviais da existência humana. E forçoso é concordar com o crítico paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que, no posfácio, lembra esse diálogo da poesia de Cunha Melo com a insólita ficção do autor de O Processo, visível sobretudo no 'recorte estilístico de uma escrita quase clara, concisa, solar, embora tocando em poços profundos e nas dores patéticas da alma humana'.

Como em livros anteriores, Cunha Melo não cede aos modismos e sua poesia reflete, acima de tudo, busca pungente dos estratos mais profundos de sua alma atormentada.

Há nele um pouco daquele terror que antecede a glória, tal como o vemos em quase todos os poemas que T.S. Eliot escreveu antes de sua conversão ao catolicismo anglicano. Mas é apenas uma lembrança talvez inoportuna, pois a poética do autor de O Cão de Olhos Amarelos não nos acena com nenhuma futura trégua. Antes nos promete mais crueza e contundência, como se em sua aspereza polifônica residisse o próprio cerne obstinado e irredento da alma nordestina. 


(SERVIÇO)O Cão de Olhos Amarelos & Outros Poemas Inéditos, Alberto da Cunha Melo, Girafa, 256 págs., R$ 29

 

 

Leia mais:

 

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas) DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio) HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)Tradição dos extremos (editoria da revista Continente Multicultural. Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006"A poesia não é uma mercadoria". IVANA MOURA entrevista Alberto da Cunha Melo. Diario de Pernambuco, Recife, domingo, 07 de maio de 2006, Caderno Viver, p. 08. Alberto da Cunha Melo. 40 anos de poesia, por ASTIER BASÍLIO. Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba. João Pessoa, domingo, 07 de maio de 2006. Identidade e variantes de Alberto da Cunha Melo, por IZACYL GUIMARÃES FERREIRA (Portal da UBE-SP - Estudos e Resenhas) O cão de olhos amarelos, por WALTER CABRAL DE MOURA. Jornal do Commercio, Opinião, 06 de junho de 2006. A metáfora do vazio na poesia de Alberto da Cunha Melo , por LILIANE MARIA JAMIR E SILVA. Ensaio acadêmico inédito.  O cão de olhos amarelos, por ÁLVARO ALVES DE FARIA. Rascunho, 23 de junho de 2006. A técnica da escrita simples, por Henriques Rodrigues. Jornal do Brasil, Jornal do Brasil, 19.08.2006 

 

Homenagens: Alberto da Cunha Melo, por FRANCISCO SOARES. Colagem feita com versos de Alberto Ao mestre com total respeito, por ANTÔNIO MARINHO. Paráfrase do poema "Aos mestres com desrespeito", de Alberto da Cunha Melo "Heróis Brasileiros" , (Coluna Direto ao Assunto, do Jornal da Paraíba) JOSÉ NÊUMANNE PINTO

 

   
 
 

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