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Por André Maranhão Santos *

 

 

  Foto de Assis Lima. Alberto da Cunha Melo no Parque Treze de Maio. Recife, 2006.
 

 

"As pupilas velhas disparam
seu rancor nos jovens casais,
que se abraçam no parque em festa
por entre pombos e pardais;

pálidos de ressentimento,
aqueles anciãos se sentam

vencidos, nos bancos de pedra,
enquanto a noite, muda arqueira,
já lhes aponta a negra flecha,

por não saberem, na partida,
que obscena é a morte, não a vida".

("Parque Treze de Maio", do livro Meditação sob os Lajedos)

   
 

 

Quem conhece o setor de Obras Raras da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, talvez nem imagina que além dos escritores de grande reputação dos séculos anteriores, haja outro de tanto peso quanto, e que ainda respira uma poética refrescante aos nossos ouvidos e tino. Eis que surge Alberto da Cunha Melo, simplesmente um dos maiores poetas vivos, não só de Jaboatão, (localidade que ele sempre destaca com muito carinho), mas do mundo também, pois "os bons escritores alcançam a universalidade".
Nos seus passos sóbrios há tanta história para contar, com detalhes tão precisos e bem definidos em suas experiências e casos. E ele não esconde sua ousadia e o seu espírito revolucionário e de luta, que faz jus à motivação marxista latente em sua essência. Mas não apenas o gosto do Socialismo circunda Alberto: existe uma pluralidade de texturas imprescindíveis à formação de qualquer escritor interessado em viver sua Poesia, dos quais Kafka e João Cabral merecem maior destaque, sendo inclusive seus grandes "autores de cabeceira".
Hoje em seus 64 anos, é um dos poucos escritores responsáveis e dedicados, com métricas e rimas bem regradas. Em sua obra "O Cão dos Olhos Amarelos" há versos octossilábicos, num universo repleto de angústia, como bem retratou Ivan Junqueira no O Estado de São Paulo. Cunha Melo mantém ainda uma construção apurada e zelosa no entorno de seus poemas, ao ponto de realmente isolar-se para a finalização de suas composições. Ele mesmo diz que "a poesia é a tecnologia de ponta da palavra" e que "qualquer autopiedade é um indício para o fracasso". Por isso ele mantém seu rigor e dedicação no aperfeiçoamento da escrita, acreditando que revisar e restaurar os poemas é preciso, e respeitando três critérios em sua construção literária: "o ritmo, a linguagem conotativa e a descontinuidade".
Mas o poeta ainda aborda o cotidiano, mantendo uma escrita rápida, que desperta uma aridez em quem lê. O seus temas perpassam desde o teor de crítica social que há em "Meditação Sob os Lajedos" até o amor desesperado, frio e crente nos fragmentos de esperança, presentes no livro "Clau". Há uma espécie de neo-realismo independente em Alberto, este grande manancial que felizmente ainda podemos beber.

  *www.andremaranhao.blogspot.com
 

 

Setor de Obras Raras da BPE-PE. Da esquerda para a direita: Josefina Gomes, Adeusa, Vanda, Alberto da Cunha Melo, Rebeca e Marcelo. Recife, 2006.

 

 

 

 

Leia mais:

 

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas) DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio) HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)Tradição dos extremos (editoria da revista Continente Multicultural. Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006"A poesia não é uma mercadoria". IVANA MOURA entrevista Alberto da Cunha Melo. Diario de Pernambuco, Recife, domingo, 07 de maio de 2006, Caderno Viver, p. 08. Alberto da Cunha Melo. 40 anos de poesia, por ASTIER BASÍLIO. Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba. João Pessoa, domingo, 07 de maio de 2006. Identidade e variantes de Alberto da Cunha Melo, por IZACYL GUIMARÃES FERREIRA (Portal da UBE-SP - Estudos e Resenhas) O cão de olhos amarelos, por WALTER CABRAL DE MOURA. Jornal do Commercio, Opinião, 06 de junho de 2006. A metáfora do vazio na poesia de Alberto da Cunha Melo , por LILIANE MARIA JAMIR E SILVA. Ensaio acadêmico inédito.  O cão de olhos amarelos, por ÁLVARO ALVES DE FARIA. Rascunho, 23 de junho de 2006. A técnica da escrita simples, por Henriques Rodrigues. Jornal do Brasil, Jornal do Brasil, 19.08.2006  Diário cortante com Kafka nos poços fundos da angústia, por IVAN JUNQUEIRA. O Estado de S. Paulo, 26 (domingo) de novembro de 2006, Caderno 2.

 

Homenagens: Alberto da Cunha Melo, por FRANCISCO SOARES. Colagem feita com versos de Alberto Ao mestre com total respeito, por ANTÔNIO MARINHO. Paráfrase do poema "Aos mestres com desrespeito", de Alberto da Cunha Melo "Heróis Brasileiros" , (Coluna Direto ao Assunto, do Jornal da Paraíba) JOSÉ NÊUMANNE PINTO Urariano Mota. O poeta imortal que não vemos.Alberto da Cunha Melo: Um ressuscitador da Poética. ANDRÉ MARANHÃO SANTOS

 
 

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