Izacyl Guimarães Ferreira

 

 

 

 

           O último livro de Alberto da Cunha Melo, lançado no dia 9 de maio no Recife, em edição de A Girafa, abre espaço para muitas leituras e ponderações. Estávamos ficando acostumados a uma poesia de raro rigor, de formas pessoais como a “retranca”, na qual as rimas e /ou a isometria se destacavam firme e sonoramente sobre a base de sua compassiva, dolorida visão do mundo.

          Seu novo livro, O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos, reforça a identidade de uma poesia rigorosa e inventiva em boa parte do livro, enquanto em grande porção dos inéditos, mas mais antigos, lê-se outro e surpreendente poeta, sem que se perca o reconhecimento de sua dicção. Tratemos de explicar, embora o próprio autor e seus  três comentaristas, nas orelhas, na introdução e no posfácio, já se incumbam de situar o que vamos ler ao longo da coletânea.

          A parte inicial, que dá o título geral do livro, é uma recuperação, quer da renka japonesa, formalmente, quer do espírito de certa maneira  de composição popular nordestina, pela narratividade e pela reiteração, como nos desafios, num processo construtivo de “leixa pren”:


Mora lá perto a dor alheia,
mas teu verso não chega lá.

Mora lá perto a dor alheia,
mas teu verso não chega lá.
Contra os gritos da casa em frente,
tu pões o Adágio de Albinone
no volume do temporal.

tu pões o Adágio de Albinone
no volume do temporal.
Não chega lá o piedoso,
que reza, tem medo de sangue,
e vai trabalhar de manhã.



           Assim começa a primeira renka, Distâncias, que terminará com versos
inequivocamente deste poeta:


          mas, já é tarde, não há gritos
          nem ninguém para abrir a porta.


          Inequivocamente de Alberto da Cunha Melo, poeta que expõe sem meias palavras a dureza da condição humana. Renkas como Balança, Império, Os Carajás, tantas, expressam com dignidade e clareza o sofrimento geral. A do título, que narra a miséria de um cão de rua que a carrocinha oficial recolhe e enforca no laço é uma terrível metáfora do viver. Não por acaso titula a obra inteira.

           A transposição da renka à nossa língua, tal como a retranca e mais a
fidelidade ao octossílabo, ritmo relativamente pouco usado em nossa poesia,
são marcas próprias do poeta e contribuição preciosa à poética brasileira.

          Sua retranca aparece na segunda parte do livro, em que os versos críticos da nossa existência são freqüentes. Exemplos: a enumeração deste nada/em que toda vida acaba. //da legião dos deuses mortos/ que apodrece em todos os portos. //se nenhum deus é teu amigo/ basta a vida como castigo.

         Mas além destas suas duas formas pessoais, surpreende-nos a versatilidade dos poemas curtos da maior seção do livro, em que além da amargura, sempre à espreita, há humor, crítica social, ternura. E uma metaforização que não raro nos faz pensar em... Murilo Mendes. Veja-se A normalista, Sabedoria classe B, ou versos como azul cardeal/ que choca uma estrela //E uma lua de pragata/ Cobre de nuvens, aflita, /Sua bundinha de prata. Essa pragata (alpercata, sandália) ilustra outra característica destes poemas: a incorporação do popular à sua obra.

        Nestes textos esparsos, “tirados das gavetas”, há um cronicar de ocorrências comuns e de dramas, em que faíscam diamantes, como em Sertão Central e de Crateús, Mães, Krag 6, Água, uma lista que se começo a listar repito o sumário do livro, poemas onde são raríssimas as rimas, isometrias e invenções formais já tão características de Alberto. Mas sua temática está lá, solta das construções que o marcam mas presas à sua descrença nos deuses, na vida eterna. Mas sempre fraterno e rico de imagens ora comovedoras, ora desconcertantes.

          Sabe-se que na obra anterior de um poeta também sociólogo e jornalista há uma dura narrativa dos fatos em linguagem coloquial onde a poesia aflora natural, pois a observação do entorno é de quem incorpora o observado padecimento.

         Perdoe-se então o ludismo fácil dos reflexos das “vanguardas”, na seção III, que  nada têm a ver com a honrada naturalidade de um poeta capaz de não repetir-se, mesmo quando volta a seus temas habituais, como faz nos quintetos da última seção do livro, que recolhe poemas mais antigos. 

        Neles, Uma falha no ritual, Um estudo da porta, Um homem na rede e Comarca dos inocentes, entre outros, fecham nos vinte versos brancos de oito sílabas, a medida já então favorita do poeta, a série final de um livro indispensável de um poeta que já amadurecera ao escrevê-los, mas sem publicá-los até agora.

        Uma leitura do posfácio, de Hildeberto Barbosa Filho, sobre as estruturas dos poemas, a vigor da narratividade, a riqueza dos seus numerosos intertextos e a importância dos títulos como partes integrantes dos versos, aclara as poucas, eventuais obscuridades, realmente incomuns neste poeta de fala clara e precisa. 

       A série “dual”, que aparece na coletânea Pernambuco, terra da poesia, e que consta do livro Carne de terceira é exemplo da dificuldade ou do trovar “clus” pouco freqüente nos textos seus que conheço, através da ampla presença na web.

        Porque sua linha poética mais característica, desde Oração pelo poema e Yacala até este cão de olhos amarelos é a de uma fala transparente e sempre de versos que são facas só lâminas como os de seu conterrâneo João Cabral. 

         O livro marca não apenas os maduros 40 anos da poesia de Alberto da Cunha Melo. Marca também um momento rico da nossa atual poesia, da qual este sóbrio pernambucano é personagem de primeira linha.

         Por isso mesmo sua já extensa obra está a merecer edição que reuna todos os livros do poeta, para que se tenha total visão de todo o seu processo criador.

  Fale com Alberto: alberto9@hotlink.com.br
 

 

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas)

DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio)

HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)

 
 

 

 

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