Astier Basílio

 

 

 

 

           O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos (A Girafa, 2006, 227 pgs), do pernambucano Alberto da Cunha Melo, marca a comemoração de 40 anos dedicados ao ofício da poesia. Nesta obra o autor reatualiza uma antiga forma poética já extinta da poesia japonesa denominada de "renka". O traço marcante no redimensionamento desta expressão poética ancestral do haicai é a repetição. Os poemas da primeira parte deste livro, por conta deste recurso, amplificam o "estribilho" como um refrão no vácuo, tornando-se uma espécie de incômodo eco, dimensionando ainda mais a força arrebatadora das "pedradas" que cada renka encerra. 

           Os dísticos que se repentem no corpo das estrofes causam, ao final da leitura, a imprensão de que estamos acompanhados por um coro invisível que nos agride com seu canto. É uma microfonia no vazio a triturar os ouvidos mais delicados, eletrocutando o leitor com o duro real. Cada poema, cada "renka" é uma espécie de narrativa, de notícia, em que Alberto da Cunha Melo liberta do anonimato personagens das mais comuns e anônimas do cotidiano. Sem qualquer preocupação multiculturalista, o poeta dá voz à margem silenciada e mostra a imagem dos sujeitos invisíveis. 

          É o caso do forte poema que dá título ao livro, onde Alberto fala sobre a história do vira-latas "Jupy", nome tão banal e comuns aos cães do Nordeste "Numa cova de sombra, um cão,/ na calçada de um bar gemia//Numa cova de sombra, um cão,/ na calçada de um bar gemia./ Era um cão de olhos amarelos/ com uns tons de urina boiando/ pelo ferro podre das órbitas.//com uns tons de urina boiando/ pelo ferro podre das órbitas./ Jupy já não ia catar/ o que os outros cães procuravam/ nas lixeiras cheias de vômito// o que os outros cães procuravam/ nas lixeiras cheias de vômito/mas, sua presença de sombra/ era tão densa na calçada,/ que as outras sombras tropeçavam//era tão densa na calçada,/ que as outras sombras tropeçavam/ Esse cão de olhos amarelos/ sequer foi ligeira lembrança/ ou herdeiro de um ossuário//sequer foi ligeira lembrança/ ou herdeiro de um ossuário/Jupy, com seus olhos de pus/ novo, ou abstratíssimo ouro,/ vivia a ser o chato cão//novo, ou abstratíssimo ouro,/ vivia a ser o chato cão. Um chão de pedras portuguesas/ manchadas de catarro grosso/ Agora, vêm sujá-lo as botas// manchadas de catarro grosso/ Agora, vêm sujá-lo as botas/ de algum fiscal da prefeitura,/ que o leva no laço, enforcando-o,/ sem um latido de protesto./ que o leva no laço, enforcando-o,/ sem um latido de protesto". 

        A difícil arte de escrever simples 

        Lendo a poética de Alberto da Cunha Melo, páira no ar uma pergunta: o que fazer com a derrota? Sobretudo numa época em que é chique ser maldito, mas desde que se tenha a estabilidade num emprego público federal, família com filhos bem criados e crescidos. Ninguém quer ser "campeão em tudo", ao contrário, o que dá ponto é " levar porrada", como naquele belo poema de Fernando Pessoa, mas poucos poetas sabem o que fazer com a derrota e a miséria humana, assuntos em desuso na poesia atual praticada no Brasil. Mesmo que sua poesia fotografe a cor local do Recife "Amarelo Manga" de Cláudio Assis, do sertão que está longe das mitologias e da simbologia dos brasões armoriais, Alberto, pela sua forma e pelos seus temas, é um poeta em extinção . 

        Alberto da Cunha Melo não faz só da derrota, do fracasso humano a matéria de seu canto. Ele parece que nos fala de dentro mesmo, do circular que passa de hora em hora no subúrbio. Não é a visão de quem se escandaliza, mas de quem compartilha do mesmo sofrimento, com uma lição de quem não tem vergonha, nem piedade de si próprio. Embora a lírica do pernambucano seja por estas razões participante ou engajada, não há nenhum indício de que se situe e se esgote como um brado e apelo político. De maneira nenhuma. Alberto é o poeta da condição humana, o oráculo sem medo que nos revela o retrato em digital de um tempo que não se salva. É este o seu "cartão de visita': "Moro tão longe, que as serpentes/ morrem no meio do caminho. Moro bem longe: quem me alcança/ para sempre me alcançará (...) É preciso ser companheiro do Tempo e mergulhar na Terra, / segurar minha mão/ e não ter medo de perder". 

         Neste seu novo livro, O Cão de Olhos Amarelos Alberto ratifica a sua condição de mestre no manejo com as palavras. É surpreendente ver como o poeta consegue combinar as palavras mais simples e a forma como as enfeixa no ritmo e no cenário do seu poema, todos eles vertidos a partir de uma idéia central, revelando sempre com originalidade uma verdade aterradora. 

       Na lírica brasileira a família dos poetas que souberam trabalhar com a simplicidade é bem pequena. Me lembro aqui de Manuel Bandeira, Mário Quintana, Cecília Meireles. Todavia, nenhum deles abordou temas tão repletos de miséria e de vida como faz o pernambucano. Escrever quase ao rés da fala comum sem perder o senso do sublime é quase impossível e Alberto da Cunha Melo faz isso com perfeição. 

       É o que podemos ver no belíssimo "Controle remoto", deste seu novo livro: "Tudo sob controle:/ a família/ e as prestações./ O carro pago/ é lavado e esfregado/ todos os domingos./ Não faz vergonha estacioná-lo/ diante de Deus ou do Clube/ dos Colecionadores de Esporro./ Não beberá este chope, não provará destas mulheres/ e os dez mandamentos, no bolso, / estão juntos do cartão de crédito/ e das apólices de seguro/ contra a liberdade./ Tudo sob controle:/ um túmulo foi comprado/ em módicas prestações/ para a família que cresce,/ uma família que sabe/ as quatro operações da vitória./ Tudo sob controle:/ menos a agonia/ de esperar tanto tempo." 

         Curtas-metragens de agonia 

         Os poemas de Alberto da Cunha Melo são dotados de um poder de compactação tão bem engendrado que é quase uma heresia retirar apenas um trecho de seus poemas, com o risco de que algo se perca ou algo fique fora do lugar. Cada poema é como um curta-metragem. Narração, cenário e pensamento se fundem num só movimento, num só golpe sem miséricórdia, numa execução sumária em que a realidade, em sua forma mais bruta, é apontada. 

      Sempre me questionei o porquê de em crítica de poesia o tema geralmente não ter um peso no juízo de valor, como tem, por exemplo, no cinema. Diferente das principais linhas estéticas da poesia contemporânea, seja a mais tradicional, seja a mais inventiva, o que se vê é a predileção por temas restritíssimos, no qual o que impera é a masturbação metalingüística. 

      Os doentes no hospital, os passageiros do ônibus, os bêbados, os loucos, as prostitutas, toda esta fantasmagoria social assombra os poemas de Alberto da Cunha Melo que, como uma lente do Dogma-95, apresenta o seu retrato vívido e cruel sem cortes e sem luz artificial. Na poesia de Alberto da Cunha Melo não há ornamentos de linguagem, tudo é essencial. Do título à cada palavra escolhida, não há um caminho em busca da beleza, mas uma pergunta permanente sobre o que é o homem. Podemos ver esta força em poemas como "Grandeza da madrugada": "Quem fala/ do que fez/ e do que foi/ já não faz/ e já não é: / e nos deixa aflitos/ nessas madrugadas de bar/ comandando mortos,/ amando mulheres/ que hoje engordam nas cozinhas, / exibindo uma coragem/ antiga e sem testemunhas:/ e ficamos, ainda mais aflitos,/ quando a voz começa a engrolar,/ e não sabemos em que beco,/ ou pensão da periferia, desembarcar/ nossa grandiosa ruína". 

         Alberto da Cunha Melo não se importa com um final feliz, até porque como ele mesmo diz "Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem". 

 
  Fale com Alberto: alberto9@hotlink.com.br
 
 

 

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