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O livro é composto de cinco partes: a primeira, autônoma, classificada enganosamente (é o autor quem o diz, em nota inicial) como renkas/poemas, constitui uma “homenagem a uma forma poética extinta”. São 29 poemas octossílabos, que começam por um dístico, à maneira de mote, e terminam em outro, entre os dois, o poeta interpola um número variável (de três a 12) de estrofes pentâmeras, sempre iniciadas pelo anaforismo dos dois últimos versos da anterior – o dístico final também assim se forma.
As quatro partes seguintes agrupam-se nos Outros poemas inéditos. Nesta série, a primeira é formada por 47 poemas rimados, esquema ABCB/ DD/ EFE/ GG, em forma fixa: versos octossílabos distribuídos em um quarteto, um dístico, um terceto e um dístico, conjunto denominado retranca pelo poeta. A parte II, terceira do livro, compõe-se de versos brancos e livres – 140 poemas. A quarta parte reúne 11 experiências esporádicas ligadas ao vanguardismo brasileiro, que poderíamos dizer um epifenômeno na obra de Alberto, o seu pra-não-dizer-que-não-falei-de-flores.
Por fim, a parte IV traz poemas da primeira fase do poeta (é outra vez ele próprio que o informa): 25 poemas isométricos – mais uma vez octossilábicos – e isômeros, constituídos por cinco estrofes de cinco versos, cada.
A chave que explica, possivelmente, a preferência pela forma fixa está na segunda nota do autor, introdutória aos Outros poemas...: “o mau uso do verso livre terminou por colocar em risco a própria identidade social da poesia.” E pelo metro octossílabo, talvez no poema Chiste numérico: “gosto do número 3/ e do número 8/ e tenho uma explicação:/ a metade de 8 não é 4 / é 3,/ se olharmos com intensidade./ Estes números e estas mulheres/ nos enganam/ com deliciosa facilidade.”
O emprego da forma fixa e do metro como plataformas para uma poesia extremamente criativa e de rico conteúdo imagético, de cunho marcadamente simbolista, alinha o poeta, numa primeira abordagem, a Carlos Pena Filho, cultor do soneto e do verso sobretudo decassílabo. Ocorre que, enquanto a imagética do poeta do desmantelo azul remete, amiúde, a estados próximos ao onírico, impregnados de sinestesias, àquilo ao que peço licença para chamar, livremente, de incursões pelo psicológico, o simbolismo de Alberto da Cunha Melo é instrumento para breves reportagens poéticas – incursões pelo sociológico – todavia plenamente conscientes de serem antes poesia que jornalismo, portanto as entrelinhas, o símbolo, o palimpsesto.
Daí Alberto apresentar, em linguagem cifrada, uma poesia de riquíssimo cunho narrativo, afiliando-se assim à tradição antiga dos rapsodos, dos cantadores de histórias, sejam estas ocidentais e franco-ibéricas, como a da princesa Magalana, sejam orientais e ibero-magrebinas, como as que foram cantadas em zéjels e em xácaras, no al-Andaluz ou no al-Gharb, por músicos-poetas de sitar ou rabeca.
E quem melhor, senão exclusivamente, preservou entre nós esta tradição, do que os cantadores de pé-de-parede, entre os quais, como se sabe, o autor de Um certo Louro do Pajeú goza de livre trânsito? Ou seja, os representantes da riquíssima literatura oral que perpetua, no Nordeste, as remotas tradições de que falamos, a nós chegadas pelo menos em parte, aliás - o assunto é controverso – via Provença e seus leixa-pren, revisitados em O cão de olhos amarelos.
É preciso, portanto, ler Alberto da Cunha Melo nas entrelinhas, para se ter pleno acesso à cosmogonia de sua poesia. Trata-se de um mundo habitado por deuses, como aqueles “sem férias/ dos carregadores de pedra,/ que ergueram montanhas/ sobre os corpos enfaixados/ dos seus opressores,” ... (Anúncio turístico do trópico) mas sobretudo por personagens excluídos, como, entre tantos outros, Lena, que “vivia só, nas margens/ da longa BR-101,/ onde levantava sua blusa,/ ou a saia, meio encardida,/ quando passava um caminhão.” ... (Lena), ou o vigilante Amaro Cândido, a quem “mataram demais” e que, por isso, “morreu demais” (A morte do vigilante Amaro Cândido), ou ainda o próprio cão Jupy, de olhos amarelos de urina, pus, escarro.
É uma poesia que personifica – torna persona e pessoa – mesmo que pelo breve momento que pode durar a leitura de um poema, e pelo não tão breve período em que permanece o seu alumbramento, anônimos bem-aventurados, “que sequer se sabem anônimos,/ como a moldura de um retrato/ que vi numa aldeia esquecida” ... (Anônimos), ou como Maria ninguém, cujo nome “ninguém sabia / e era chamada Maria” ... (Maria ninguém), ou então como, para um último exemplo, a moça sem nome – perfeitamente anônima – cuja beleza a chuva fez parar sob a “marquise dos Correios/ onde, vindos da noite, abrigávamos-nos,” ... e ao mais bêbado dos circunstantes fez chorar por “alguma irmã, filha, ou amada morta,/ quando a onda de sol/ a carregou para sempre.” (Sob a marquise dos correios).
Quem fizer esse acesso, quem proceder à leitura labial de entrelinhas deste livro, estará não sei se diante de alguma espécie de epifania, o que dependerá, evidentemente, da crença teológica e do pathos poético do leitor, mas com certeza, diante de parte substancial do que de melhor se faz em matéria de poesia contemporânea brasileira, neste início de século.
© Jornal do Commercio, Opinião, 06.06.2006
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