Walter Cabral de Moura

 

 

Algumas considerações sobre o livro de Alberto da Cunha Melo

 

           

O livro é composto de cinco partes: a primeira, autônoma, classificada enganosamente (é o autor quem o diz, em nota inicial) como renkas/poemas, constitui uma “homenagem a uma forma poética extinta”. São 29 poemas octossílabos, que começam por um dístico, à maneira de mote, e terminam em outro, entre os dois, o poeta interpola um número variável (de três a 12) de estrofes pentâmeras, sempre iniciadas pelo anaforismo dos dois últimos versos da anterior – o dístico final também assim se forma. 

As quatro partes seguintes agrupam-se nos Outros poemas inéditos. Nesta série, a primeira é formada por 47 poemas rimados, esquema ABCB/ DD/ EFE/ GG, em forma fixa: versos octossílabos distribuídos em um quarteto, um dístico, um terceto e um dístico, conjunto denominado retranca pelo poeta. A parte II, terceira do livro, compõe-se de versos brancos e livres – 140 poemas. A quarta parte reúne 11 experiências esporádicas ligadas ao vanguardismo brasileiro, que poderíamos dizer um epifenômeno na obra de Alberto, o seu pra-não-dizer-que-não-falei-de-flores. 

Por fim, a parte IV traz poemas da primeira fase do poeta (é outra vez ele próprio que o informa): 25 poemas isométricos – mais uma vez octossilábicos – e isômeros, constituídos por cinco estrofes de cinco versos, cada. 

A chave que explica, possivelmente, a preferência pela forma fixa está na segunda nota do autor, introdutória aos Outros poemas...: “o mau uso do verso livre terminou por colocar em risco a própria identidade social da poesia.” E pelo metro octossílabo, talvez no poema Chiste numérico: “gosto do número 3/ e do número 8/ e tenho uma explicação:/ a metade de 8 não é 4 / é 3,/ se olharmos com intensidade./ Estes números e estas mulheres/ nos enganam/ com deliciosa facilidade.” 

O emprego da forma fixa e do metro como plataformas para uma poesia extremamente criativa e de rico conteúdo imagético, de cunho marcadamente simbolista, alinha o poeta, numa primeira abordagem, a Carlos Pena Filho, cultor do soneto e do verso sobretudo decassílabo. Ocorre que, enquanto a imagética do poeta do desmantelo azul remete, amiúde, a estados próximos ao onírico, impregnados de sinestesias, àquilo ao que peço licença para chamar, livremente, de incursões pelo psicológico, o simbolismo de Alberto da Cunha Melo é instrumento para breves reportagens poéticas – incursões pelo sociológico – todavia plenamente conscientes de serem antes poesia que jornalismo, portanto as entrelinhas, o símbolo, o palimpsesto. 

Daí Alberto apresentar, em linguagem cifrada, uma poesia de riquíssimo cunho narrativo, afiliando-se assim à tradição antiga dos rapsodos, dos cantadores de histórias, sejam estas ocidentais e franco-ibéricas, como a da princesa Magalana, sejam orientais e ibero-magrebinas, como as que foram cantadas em zéjels e em xácaras, no al-Andaluz ou no al-Gharb, por músicos-poetas de sitar ou rabeca. 

E quem melhor, senão exclusivamente, preservou entre nós esta tradição, do que os cantadores de pé-de-parede, entre os quais, como se sabe, o autor de Um certo Louro do Pajeú goza de livre trânsito? Ou seja, os representantes da riquíssima literatura oral que perpetua, no Nordeste, as remotas tradições de que falamos, a nós chegadas pelo menos em parte, aliás - o assunto é controverso – via Provença e seus leixa-pren, revisitados em O cão de olhos amarelos. 

É preciso, portanto, ler Alberto da Cunha Melo nas entrelinhas, para se ter pleno acesso à cosmogonia de sua poesia. Trata-se de um mundo habitado por deuses, como aqueles “sem férias/ dos carregadores de pedra,/ que ergueram montanhas/ sobre os corpos enfaixados/ dos seus opressores,” ... (Anúncio turístico do trópico) mas sobretudo por personagens excluídos, como, entre tantos outros, Lena, que “vivia só, nas margens/ da longa BR-101,/ onde levantava sua blusa,/ ou a saia, meio encardida,/ quando passava um caminhão.” ... (Lena), ou o vigilante Amaro Cândido, a quem “mataram demais” e que, por isso, “morreu demais” (A morte do vigilante Amaro Cândido), ou ainda o próprio cão Jupy, de olhos amarelos de urina, pus, escarro. 

É uma poesia que personifica – torna persona e pessoa – mesmo que pelo breve momento que pode durar a leitura de um poema, e pelo não tão breve período em que permanece o seu alumbramento, anônimos bem-aventurados, “que sequer se sabem anônimos,/ como a moldura de um retrato/ que vi numa aldeia esquecida” ... (Anônimos), ou como Maria ninguém, cujo nome “ninguém sabia / e era chamada Maria” ... (Maria ninguém), ou então como, para um último exemplo, a moça sem nome – perfeitamente anônima – cuja beleza a chuva fez parar sob a “marquise dos Correios/ onde, vindos da noite, abrigávamos-nos,” ... e ao mais bêbado dos circunstantes fez chorar por “alguma irmã, filha, ou amada morta,/ quando a onda de sol/ a carregou para sempre.” (Sob a marquise dos correios). 

Quem fizer esse acesso, quem proceder à leitura labial de entrelinhas deste livro, estará não sei se diante de alguma espécie de epifania, o que dependerá, evidentemente, da crença teológica e do pathos poético do leitor, mas com certeza, diante de parte substancial do que de melhor se faz em matéria de poesia contemporânea brasileira, neste início de século. 



© Jornal do Commercio,  Opinião, 06.06.2006
      

 

 

Leia mais:

 

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas)

DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio)

HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)

Tradição dos extremos (editoria da revista Continente Multicultural. Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006 )

"A poesia não é uma mercadoria". Ivana Moura entrevista Alberto da Cunha Melo. Diario de Pernambuco, Recife, domingo, 07 de maio de 2006, Caderno Viver, p. 08.

Alberto da Cunha Melo. 40 anos de poesia, por Astier Basílio. Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba. João Pessoa, domingo, 07 de maio de 2006.

Identidade e variantes de Alberto da Cunha Melo, por Izacyl Guimarães Ferreira (Portal da UBE-SP - Estudos e Resenhas)

O cão de olhos amarelos, por Walter Cabral de Moura. Jornal do Commercio, Opinião, 06 de junho de 2006.

Alberto da Cunha Melo, por Francisco Soares. Colagem feita com versos de Alberto.

Ao mestre com total respeito, por Antônio Marinho. Paráfrase do poema "Aos mestres com desrespeito", de Alberto da Cunha Melo

   
 
 

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