por Francisco Soares

 

 


O monetário círculo 
Providencia para 
Que não falte nada
Nem sobre nada

Neste como nos outros
Dias anteriores, 
Relógios de verniz,
Olhos de estrelas cegas
A cintilar no paraíso.

E após o duplo
Expediente
Um copo de álcool,
Esquecimento. 

 

Para que as palavras 
terminem, se esgotem. 
Porém, a manhã 
Ainda pergunta-
-rá pelas flores 
Que fumam clarões
De peles, de quartos


De sol. À noite
Regressarão
Sinos com sabres
Pela sua gleba
Perfurada com

Névoas delicadas,
Sombras que me lavam
Vestígios de sombra

Marés vazantes e crescentes
Vestem de jambo e sangue velho
Frutas, cubatas condenadas
Ao traje da mortalha e ao da vida
Além dos bares da avenida onde
Damas e Lordes – leite e pão – 
Na radiância absoluta
Do amor e da verdade oculta,

Amanhecem querendo 
(Mesmo) o amanhecer.
Ardem cios em sonhos.
Mas há sempre uma garça
Ainda não alcançada
A explodir na madura
Vagem de solidão
Sem gordura e sem sal
Que se vê retratada
Na palma reclinada
Sobre o jornal de Sábado

E o nirvana, já em casa,
Numa torta de banana
Nesse final de semana
Sem quintal e feijoada.
Essa meia altura sagra
Só a espuma sossegada
Da ondulação quebrada
Nos escritórios fechados
Com o seu micro-alarde 
Em laivos de eternidade

Num rabo escuro de papel,
Finanças de outra fábrica
Já nomeada por um crítico
Obra-prima do pós-político.

Fica a barba mimada por fazer
E eu não sei em que rima hei-de isto ver
Mas já ninguém declama o regresso do sonho
Que menos cresce quanto menos se balança.

No fim do roteiro
O ódio no espelho
De Yacala engulha.

São as horas da Besta.
As ampulhetas do extermínio.
A carne de terceira.
Os funcionários muito assíduos.
Hemorragias internadas
Que envernizam por dentro
A cometer o engano 

De cantar tão longe
Sem brisa nem tom.
Tudo isso Deus quis
Neste lugar em 
que a vida perde os 
sentidos em nome
dos outros que sem
eles tu aprendes
O quanto estás bem,
Tão bem conservado,

Forasteiro e amigo
De amigo na cisão
Do cálculo balístico
Dos interesses e 
Das escolhas migrantes.

Quando escolheste
a mudança, lembras-te?
Temias a bala
Azeda do sol.
E enquanto prosperam
Arsenais, negócios
E passam ilesos
Eleições, novembros
Medalhas dos técnicos
Migalhas do povo,

Moças de vinte anos
Depilam-nos os pelos
Nos subúrbios da ordem,
Da floresta afogada
Pelas tranças caídas
A tropeçar nos alarmes
Nos arames que circundam
O cárcere, a esmurrar-se 
No banho para não 
Masturbar-se na prata
Da cruz escurecida
Entre os seios de blusa.

Este assistir a seco
À própria percepção
De se extinguir no coice
Do laudo rotineiro
Que roça a eternidade
Faz-me pensar que um dia
O abutre que aqueço
Ao calor do meu sangue
Me vai cobrar o preço

E me aquecerá
O esqueleto morto
E me lavará
Com as alegrias 
Que deixaram outros
Que são o pão nosso 
Para cada dia.

Nessa esperança 
me adormeço
Minutos antes 
Do expediente.

 

 

 

 
 

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