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Liliane Maria Jamir e Silva |
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Do encontro da dor e do instinto,
nascem as obras de arte. (Thomas
Mann) Neste estudo, propomos uma leitura crítica de alguns poemas de Alberto da Cunha Melo, procurando observar, na composição poética, e principalmente na natureza das metáforas, o aspecto ideológico e o caráter de resistência revelado na escritura do autor. Buscamos respaldo teórico, sobretudo, no crítico Alfredo Bosi, cujas obras, O ser e o tempo da poesia (2001) e Literatura e resistência (2002), apontam-nos relevante referencial para a leitura proposta. Segundo Alfredo Bosi, a poesia – toda grande poesia – é uma forma de resistência aos discursos dominantes. Como discurso de oposição – ou de resistência – mostra faces significativas de pelo menos três atitudes do sujeito-lírico: 1) a poesia mítica ou poesia da natureza, cuja essência se revela como redescoberta das fontes ainda não contaminadas pela civilização, propondo a recuperação do sentido comunitário perdido; 2) o lirismo de confissão, propondo a melodia dos afetos em plena defensiva; 3) e a vertente satírica, da paródia, do epos revolucionário e da utopia, cujo intento seria a crítica direta ou menos velada da desordem estabelecida (BOSI, 2001, p. 163-227). Partindo dessas idéias, a poesia se revelaria como faces ou modos de resistir ao caos, em que a intenção lírica representa uma forma de recusa do presente, ora pelo recuo a um passado histórico, adquirindo um caráter memorialista, mas não menos crítico, ora se projetando para um futuro em aberto, cujo sentimento de recusa também se faz negação do agora e desejo do ainda-não, do devir. Como primeira hipótese, (da poesia da natureza), teríamos o que Marx considera a poesia da infância histórica (cf. BOSI, 2001), e na segunda hipótese, a poesia do epos revolucionário ou da visão utópica. Em se tratando da poesia de Alberto da Cunha Melo, diríamos, a priori, que o sentido mítico memorialista é escasso (talvez inexistente, excetuando-se no conjunto de poemas do livro Clau, que presumimos inspirado em Cláudia, sua musa e companheira), face ao caráter predominantemente contestatório e ao tom agonístico que perpassa a poética albertiana. A delimitação do corpus torna-se tarefa difícil para ênfase do aspecto metafórico em epígrafe, visto ser a obra de Alberto fortemente marcada por um imagismo revelador de um eu (ou de um nós) em que o sentido de vazio – correspondente a sentimentos de solidão, ausência, descrença, entre outros – torna-se uma constante, como se verá adiante (item 4) no enfoque dos poemas Provisões (In: Poemas anteriores,1989, p. 8) e Casa vazia (In: Meditação sob os lajedos, 2002, p. 29). De início, faremos uma breve incursão, na poética de Alberto, observando alguns aspectos concernentes às faces da poesia-resistência apontadas por Alfredo Bosi (2001), conforme mencionamos anteriormente. 2. Uma poesia antimítica
A arte existe, para que a verdade não nos destrua.
(Nietzsche) Da coletânea Soma dos Sumos, publicada em 1983, três poemas que integram a obra inédita intitulada Diário de campo são dignos de destaque: Nos arredores da independência (p. 30), O Ceará nos acompanha (p. 34) e Encontro superficial com a mata (p. 32). Nestes textos, vê-se que a natureza não se veste com ar de paraíso – o locus amoenus tão caro aos poetas árcades –, nem realça a paisagem primitiva intocada pelo homem. Vejamos os respectivos poemas a começar por Nos arredores da independência: As
algarobas são
sonhos de sombra na
terra tórax de
cadáver aceso ou
sertão abatido: mas
elas, com os olhos de
suas folhas e
todos os dedos de
suas raízes de
vinte metros, só
sabem colher água
para si e
dar de beber à
própria sombra. No poema acima, elementos da paisagem conotam a idéia de solidão, de dor e desolação – “As algarobas / são sonhos de sombra, (...) a dar de beber / à própria sombra”. Os componentes da flora nativa, longe de representarem um topos da inviolabilidade ou metáfora de exaltação telúrica, revelam-se como figuras sombrias, de aspecto árido e mórbido. Note-se também que a metáfora elaborada na flexão plural – “as algarobas” – não realça o sentido harmônico provedor de amparo ao homem errante em árido deserto. Elas são “sombras de sombra”, fincadas na solidão e no abandono. Por outro lado, o efeito alegórico, construído a partir do primeiro verso, num processo contínuo de antropomorfização expressionista – “terra tórax / de cadáver aceso (...) com os olhos / e suas folhas, (...) e todos os dedos / de suas raízes,” – dá-nos conta do olhar crítico e melancólico do eu-lírico diante do abandono e da penúria daqueles seres situados à margem, “nos arredores da independência”, como já antecipa o título do poema. Semelhante conotação verifica-se no poema O Ceará nos acompanha, quando o eu-lírico delineia uma natureza em sua face árida, fato que se reitera na repetição do predicativo seco/secos (2º, 3º, 5º, 8º e 12º versos), cujo sentido ganha maior proporção pelo acréscimo dos intensificadores tão, no quinto verso, e mais, no último verso: Nesta
época, os
igarapés estão secos, e
o pasto está seco, e
Deus, que morava no Ceará, também
está seco, tão seco que
seu poço virou
depósito de ferramentas, tão
seco que
é debulhado com
raiva, feito
dura espiga do
milho mais seco.
(grifos
nossos) Como sinalizam os três primeiros versos do poema, o reduto da natureza deixa de ser o santuário paradisíaco a abrigar a pureza do homem. A paisagem ali é um ambiente opaco, inóspito, como simboliza o sintagma “depósito de ferramentas”. Os sentimentos rudes e de repúdio são sugeridos nos versos finais, em que a presença de Deus passa a ser expurgada ostensivamente, “... debulhado / com raiva, / feito dura espiga / do milho mais seco”. Em um outro poema de Soma dos sumos, intitulado Encontro superficial com a mata, observamos efeito similar. Avesso à conclamação mítica da natureza, o ritmo encadeado dos versos, em três prolações pontuadas ao final dos 5º, 9º e 13º versos, anuncia o perigo que brota do “esverdeado cristal”: A
malária esconde-se entre
as folhas da
ventania guardada em
pobres paraísos de
esverdeado cristal, ela
se reveste de
noiva brisa para
casar com
o temor do sol, e
o povo não sabe se
abra a porta ou
morra lá dentro, com
a princesa amarela. O poeta intertextualiza uma referência mítica que se mantém no imaginário popular, desautomatizando o sentido mágico original no que tange à crença ingênua nos mitos para justificar fenômenos incompreendidos pelo conhecimento racional. Assim, a possibilidade do encontro da “ventania” – “noiva brisa” – com “o temor do sol”, perde o efeito encantatório, também representado pelo sintagma “esverdeado cristal”, em face da inclusão do elemento “povo” ironicamente atrelado a uma dúvida atroz: (...) e
o povo não sabe se
abra a porta ou
morra lá dentro, com a princesa amarela., Percebe-se, também, que os componentes naturais apresentados – “folhas”, “ventania”, “brisa”, “sol” – constituem elementos dissimuladores do perigo que a mata abriga: “a princesa amarela” que “se veste / de noiva brisa / para casar / com o temor de sol...”, escondendo, em seu ventre, a doença e a morte. Mais uma vez tem-se um campo imagético tecido com fios telúricos, mas com o intuito menos velado de denúncia e de senso crítico diante da realidade. Desta forma, vê-se que, diferente da atitude lírica que redescobre fontes puras da natureza ainda não contaminadas pelo progresso, numa visão otimista aclamadora do sentido comunitário, o eu-poemático se apropria de elementos telúricos e, num processo de ressignificação motivado por circunstâncias regionais, confere à tonalidade poética um canto em contralto revelador da dimensão antimítica de uma poética de resistência. 3. Um
lirismo possesso: revolução e utopia A
arte tem a possibilidade de antecipar os sonhos. (Domingos
Sávio) Quando Bosi nos fala do lirismo de confissão como uma das faces da poesia-resistência, compreendemos tratar-se de um lirismo que promove “a melodia dos afetos em plena defensiva”, uma forma de rebelar-se e de insuflar-se contra os males que afligem o eu-nós, distinto do lirismo romântico clicherizado (do século XIX), cujo idealismo excessivo logo levou a poesia ao inevitável processo de saturação. Partindo desses pressupostos, vemos que, em Alberto da Cunha Melo, a enunciação lírica ora ecoa no tom melancólico da indagação existencial, ora como contraponto que se rebela num ímpeto contestatório. Observemos o poema seguinte, integrante do livro Poemas a mão livre, publicado em 1981 pela Edição Pirata, também incluído no já citado Soma dos sumos (p. 42): PATRIOTISMO
A MEU MODO Minha
bandeira é
meu coração, mas
olho com amor a
pupila azul da
bandeira da pátria procurando
por mim; minha
pátria é
meu coração; mas
olho com pena as
pálpebras verdes da
pátria da bandeira se
fechando por mim. No poema transcrito, na medida em que a enunciação libera uma espécie de canto agonístico, uma imagem se plasma em dois movimentos que transfiguram o campo visual da bandeira – “a pupila azul / bandeira da pátria / procurando por mim”; e “as pálpebras verdes / da pátria da bandeira / se fechando por mim” –, criando um efeito plástico cujo jogo associativo de cores e formas desconstroem o sentido simbólico originário de nosso pavilhão nacional. Sem abdicar de expressões estereotipadas de júbilo patriótico – “minha pátria”, “meu coração”, “minha bandeira” –, o poeta intercede dialogicamente através da adversativa “mas” que inicia o terceiro e nono versos, subvertendo a atitude ufanista em detrimento do sentimento nacionalista crítico já anunciado no título do poema: um “patriotismo a [seu] modo”. Ainda, de forma velada, o citado poema assinala o caráter revolucionário da poesia de Alberto da C. Melo, o qual, sem sombra de dúvida, será o marco distintivo de sua obra. Essa atitude também fica evidente em um outro poema de Soma dos sumos (p.58), cujo intento subversivo já se percebe no título do poema transcrito a seguir: PARA
OS MESTRES COM DESRESPEITO Dizem
que meu povo é
alegre e
pacífico. Eu
digo que meu povo aprendeu
com as argilas e
os bons senhores de engenho a
conhecer seu lugar. Eu
digo que meu povo deve
ser respeitado como
qualquer ânsia desconhecida da
natureza. Dizem
que meu povo não
sabe escovar-se nem
escolher seu destino. Eu
digo que meu povo é
uma pedra inflamada rolando
e crescendo do
interior para o mar. Aqui, a construção dialógica, resultante da alternância reiterada na interlocução representada pela flexão do verbo dizer – “Dizem” e “Eu digo”, – propõe uma tensão de efeito progressivo, cujo clímax delineia-se de modo sugestivo e apoteótico nos quatro últimos versos, notadamente através da metáfora “pedra inflamada”, quando o eu-lírico profetiza a possibilidade de insurreição dos oprimidos, sugerida pela imagem da turba movendo-se, reivindicando, clamando por seus direitos: “Eu digo que meu povo / é uma pedra inflamada / rolando e crescendo / do interior para o mar.” Diante da impossibilidade de um estudo extensivo das preocupações temáticas do autor, cumpre-nos registrar brevemente, além do aspecto ideológico e social, evidenciados no caráter combativo-revolucionário da poesia, o drama existencial humano que vai se cumprindo em etapas distintas (ou faces, no dizer de Bosi), reveladas ora na crença do poder transformador da palavra poética, como se observa no metapoema Exercício (I), de Soma de Sumos, p. 4: Quero
o poema terra-a-terra, o
poema raso, o
poema vil, o
poema-vivo, o
poema-víbora; o
poema fácil
e fatal, louco
e lindo feito
o bem sobre o mal. ora no desesperado ultimato sentenciado em Asteriscos (Idem, p.110), Como
um suicida que deixa uma
carta na mesa para
descansar a polícia, deixo
meu poema no mundo. (...) O
telefone negro toca na
sala interminavelmente deserta.
Que nova esperança dirá
um telefone negro? Os
meus amigos têm os olhos horríveis
diante de mim. Já
não pergunto o que lhes fiz: deixo
o meu poema na mesa. ou ainda na dolorosa constatação de que a poesia já não tem sentido, pois nada mais representa que uma ressonância intermitente no oco do mundo. Isto fica bem evidente no poema Casa vazia, do livro Meditação sob os lajedos (2002, p.29), ao qual dedicaremos atenção especial no item seguinte, cujo enfoque incidirá sobre o nível simbólico do campo poético observado em isotopias recorrentes. Cabe-nos ainda registrar um outro poema do livro Soma dos sumos (1983, p. 57), intitulado Divagações sobre o mesmo medo, onde também se observa o tom trágico e o sentido de denúncia peculiares à poética albertiana: O
medo cria músculos e
sólidos ossos nas
nuvens do céu. O
medo aumenta o perigo e
diminui os homens. Na
primeira parte do poema, acompanhamos um processo de criação da
imagem: “O medo cria músculos / e sólidos ossos / nas nuvens do céu”.
O esquema imagético toma fôlego pela corporificação de um elemento
abstrato – “o medo” – transformado numa espécie de miragem
grotesca: “O medo cria músculos / e sólidos ossos / nas nuvens do céu”. Por conseguinte, os termos “músculos” e “sólidos ossos”, insuflados pela impressão do “medo”, passam a constituir uma espécie de elemento desagregador, – “O medo aumenta o perigo / e diminui os homens” –, simbolizando ainda a condição solitária do homem face às circunstâncias do mundo hostil a ele impostas. Formado por uma quintilha, o poema também é representativo de uma notável capacidade de síntese simbólica (ou alegórica), haja vista o efeito de peso corporificado nos vocábulos “músculos” e “sólidos ossos”, cuja proporção “aumenta” no sentido inverso às condições de realização humana: “O medo aumenta o perigo / e diminui os homens”. Nessa perspectiva, a poesia de Alberto representa uma das faces mais resistentes, porquanto propõe, no dizer de Bosi (2001, p. 165), “O canto [que é] ‘um grito de alarme’...,“a palavra-esgar”, “formas estranhas pelas quais o poético sobrevive em um meio hostil ou surdo, [modos que] não constituem o ser da poesia”, mas se revelam como epos revolucionário, como forma possível de resistir às condições repressivas dos sistemas totalitários. 4. Um eco no deserto De
vez em quando Deus me tira a poesia: olho
pedra, vejo pedra mesmo. (Adélia
Prado)
Nesta última etapa de nossa leitura, procuramos destacar a metáfora do vazio e seus possíveis desdobramentos reconhecidos em alguns elementos isotópicos, cujo sentido decorre da consciência do eu-lírico em face de sua insignificância num contexto em que os comportamentos são norteados pela ideologia do consumo e da competição, determinando, por sua vez, um sentimento de desesperança e de isolamento. Alfredo Bosi, em O ser e o tempo da poesia (2001, p. 131), fala-nos desse sentimento de vazio e de solidão já pressentido no panorama burguês do século XIX. Tomando o poeta italiano Leopardi como referência em suas reflexões, Bosi destaca o sentimento melancólico desse poeta, ao referendar a intempestividade da poesia no limiar daquele século. Refletindo sobre Leopardi, Bosi enfatiza que, na cultura burguesa, “o homem é átomo voltado para si, cortado da comunidade; e, átomo, concebe os outros homens e as coisas como outras tantas mônadas”. Como decorrência, escasseia-se a relação afetiva com a natureza e com o semelhante. Com essa contextualização, Bosi justifica o comportamento apático dos indivíduos pela perda do espírito poético (reinante nas sociedades primitivas), e a conseqüente falta de solidariedade entre os homens da sociedades modernas. Assim, diz ele: Egoísmo
e abstração geram modos de sentir, agir e falar muito distantes das
condições em que se produz a poesia: que é exercício próprio da
empatia, das semelhanças, da proximidade (2001, p. 131). É a consciência desse tempo, carente de afetividade – em que não há lugar para a poesia – que leva homem e poeta a uma perplexidade, à angústia existencial e aos sentimentos de perda, como já frisamos anteriormente. O poema Provisões, de Alberto da Cunha Melo, publicado em Poemas anteriores (1989), sentencia, em tom profético e desesperançoso, a inquietude do ser face às distâncias e às ausências que se propagam inexoravelmente em torno de si: A
palavra Deus está fria como
uma máquina ao relento; é
uma palavra que morreu sem
lã, na garganta dos pobres. Amarrado
a este tronco velho e
esperando que ele apodreça, que
grito agora tu darás para
aqueles que se aproximam? Amanhã
não é propriamente uma
palavra que te salve. É
um sonho que busca outro sonho mais
longínquo, para esganar-te. É
cedo ainda porque as chamas da
ventania não chegaram, é
cedo ainda porque insistes em
contemplá-las algum dia. Vozes
isoladas nos campos murados
não se comunicam; e
alguém, que de longe te viu, entre
espinheiros fecha os olhos. O poema é farto de imagens que arrebatam e advertem sobre o egoísmo reinante nas relações sociais e o perigo de uma possível alienação, colocando-nos diante de nós mesmos e do caos social. O título “Provisões” de início soa intrigante. Até porque, deslocado do contexto poético, esse vocábulo poderia ser otimizado em seu significado. Não obstante, o termo já traz em sua prolação fonética o “tom providencial” do eu-lírico que prescreve e delineia, com fortes imagens expressionistas, um quadro grotesco e pessimista de nossa condição humana. Logo na primeira estrofe, a comparação estabelecida entre a “palavra Deus” e “uma máquina ao relento” instaura um sentido fatalista e de desconforto, ao constatar, para alguns “pobres”, a ausência de Deus “... que / morreu / sem lã, [em sua] garganta...”. A partir da segunda estrofe, o eu-lírico mostra-se interpelador de um “tu” – “que grito darás tu agora / para aqueles que se aproximam?” – imobilizado e condenado à sua própria sorte, – tal como Prometeu acorrentado ao rochedo – “Amarrado a [um] tronco velho / e esperando que ele apodreça”. Nessa interpelação, também se estabelece a tensão dramática peculiar ao estilo albertiano que será mantida ao longo do poema. Na terceira estrofe, a falta de perspectiva do eu vem destacada nos versos “Amanhã não é propriamente / uma palavra que te salve”, reiterada nos dois versos seguintes, nos quais as expressões “... sonho / mais longínquo...” quando não conotam um sentido de mau presságio – “... um sonho que busca outro / (...) para esganar-te” – elidem para o tu interpelado a esperança de uma realidade plausível: “Amanhã não é propriamente / uma palavra que te salve”. Destacam-se, ainda, nas duas últimas estrofes, imagens paradoxalmente sugestivas de conformismo e de inquietação existencial, É
cedo ainda porque as chamas da
ventania não chegaram, é
cedo ainda porque insistes em
contemplá-las algum dia. e também imagens representativas do isolamento do ser e de sua incomunicabilidade: Vozes
isoladas nos campos murados
não se comunicam; e
alguém, que de longe te viu, entre espinheiros fecha os olhos. Nessa última quadra do poema (composto integralmente pelos octossilábicos caros ao poeta), as metáforas “campos murados” e “alguém (...) entre espinheiros” constituem uma espécie de desdobramento de isotopias associadas à idéia de deserto ou de vazio, conforme já mencionamos, no sentido de projetar idéias de abandono, de isolamento e incomunicabilidade. Além do mais, há um pessimismo que perpassa todo o poema, culminando nessa estrofe final, em que o poeta cristaliza, na expressão “entre espinheiros”, o abandono e a angústia humana ante os atos de omissão e egoísmo. No poema Casa vazia, do livro Meditação sob os lajedos, publicado em 2002, o eu-lírico também sinaliza uma atitude crítica e de desencanto comparável àquele espírito romântico revolucionário da poesia moderna, segundo observação de Bosi (2001, p. 167). Vejamos o poema transcrito da página 29 da supra citada obra de Alberto da Cunha Melo: CASA
VAZIA Poema
nenhum, nunca mais será
um acontecimento: Escrevemos
cada vez mais para
um mundo cada vez menos, para
esse público dos ermos, composto
apenas de nós mesmos, uns
joões batistas a pregar para
as dobras de suas túnicas, seu
deserto particular, ou
cães latindo, noite e dia, dentro
de uma casa vazia. À primeira leitura, um leitor sensível dificilmente deixará de ser tocado pelo desencanto do poeta que parece não mais nutrir qualquer esperança sobre o poder transformador da palavra. Essa descrença foi bem observada por Bosi, ao afirmar que “O desespero dos poetas advinha de não poderem eles realizar seu sonho de fazer-se entender de todos, de encontrar um eco no coração de todos os homens” (2001, p. 167-168). Com efeito, essa sensação de nulidade e de vazio, resultante da engrenagem esmagadora das sociedades totalitárias, onde tudo se determina pela divisão de classes e pela reificação dos seres, onde os indivíduos tornam-se “mão-de-obra sem nome nem rosto”, constitui o limbo essencial para a enunciação poética justificar a falta de espaço para a poesia: Escrevemos
cada vez mais para
um mundo cada vez menos. (...) para
esse público dos ermos, compostos
apenas de nós mesmos,
Correndo o risco de generalizações, diríamos que a maioria dos poemas que compõem o livro Meditação sob os lajedos guarda um tom de fatalismo, uma angústia imensurável que nem mesmo a poesia em todas as suas faces poderia aplacar ou ao menos traduzir. Alfredo Bosi, na obra O ser e o tempo da poesia, ao defender “a resistência da poesia como uma possibilidade histórica” (2001, p. 177), afirma que a poesia – “nostálgica, crítica ou utópica” – tem procurado abrir seu próprio caminho, caminhando, querendo isso dizer que, apesar do pragmatismo do mundo moderno, o ato poético subsiste como uma necessidade vital de superação do caos social e das questões existenciais. De um modo geral, a atitude de enfrentamento (e de denúncia) é recorrente na poesia de Alberto, (como pudemos observar nos poemas até aqui analisados, notadamente os do livro Soma dos sumos), mantendo-se como epos revolucionário peculiar à grande poesia de resistência de todos os tempos. Não obstante o tom pessimista e certa melancolia que perpassam alguns versos, vislumbra-se, nesta face que permeia a linha poética de Soma dos Sumos, a crença no poder demolidor da palavra. No poema Casa vazia, já referido, vê-se que a constatação do eu-lírico é de que não há escuta nem resposta para o seu grito de alerta: “Poema nenhum, nunca mais / será um acontecimento”. E ainda mais desapontado – comparando-se ao eu-lírico de Asteriscos, outro metapoema já citado, em que a poesia ainda seria uma possibilidade, apesar da indiferença dos homens –, eis que, em Casa vazia, a solidão do poeta, que é a própria solidão do homem, já não encontra retorno em quaisquer que sejam as circunstâncias, a não ser “[n] as dobras de suas [próprias] túnicas”. Além da construção metafórica, o poema em estudo joga com outros elementos estruturais, principalmente no que concerne à cuidada elaboração da forma fixa conhecida como retranca[1], mantida em todos os poemas de Meditação sob os lajedos. É notório o modo magistral como o eu-poético transita no rigor de sua retranca sem perder a comoção lírica, o espírito épico e o tonus dramático que se entrecruzam na singularidade de cada poema do citado livro. O efeito produzido pelo encadeamento (enjambement) dos versos, no interior das estrofes ou entre elas, é digno de menção, visto ser um recurso que integra as unidades textuais (cuja prolação só se conclui no último verso), num processo harmônico de subordinação em que nada excede e nada falta, seja no aspecto semântico, seja no nível sonoro e rítmico do poema. Observe-se que todos os versos reiteram a idéia de solidão incorporada nas isotopias do “deserto” – “dos ermos” – cujo sentido será reforçado no terceto e no dístico subseqüentes: uns
joões batistas a pregar para
as dobras de suas túnicas, seu
deserto particular, ou
cães latindo, noite e dia, dentro
de uma casa vazia.
Outros recursos estilísticos são passíveis de observação. No início do terceto, a expressão “uns joões batistas”, flexionada como substantivo comum no plural, concorre para o efeito sarcástico, implicitando, por conseguinte, tanto a reificação do ser, como também a condição desditada do poeta comparada a “eco” inútil no “deserto”. Na última estrofe, o eu-lírico reitera a idéia da voz poética ressoando intermitente no vazio, no nada, numa construção alegórica que relega o poeta à condição de “... cães latindo, noite e dia, / dentro de uma casa vazia”. 5.
Uma possibilidade de reconstrução Demiurgo
da própria impotência, o
poeta tenta abrir no espaço do imaginário uma saída possível.
(Alfredo Bosi) Como leitora da poesia de Alberto da Cunha Melo, impus-me o desafio de registrar esse breve e modesto exercício crítico sobre sua obra, o qual também constitui o resultado de um seminário por mim apresentado na disciplina Teoria do Texto Poético, ministrada no segundo semestre de 2003, na UFPB, sob orientação da professora doutora Genilda Azerêdo. Evidentemente, as análises textuais aqui esboçadas não esgotam outras possibilidades de leitura dos poemas selecionados. No âmbito da proposta apresentada, fundamentada nas reflexões de Alfredo Bosi, construímos algumas hipóteses que por sua vez não se pretendem definitivas. Aliás, essa possibilidade infinita de reconstrução é própria da natureza permeável e multissignificante da linguagem poética. Afirmar que A metáfora do vazio é uma das mais expressivas representações na obra de Alberto da Cunha Melo não significa reconhecer que esta seja uma representação dominante em sua poética. Outras metáforas, no sentido mais amplo da palavra, são tecidas mediante procedimentos poéticos – a exemplo da antítese, da anáfora, da metonímia –, projetando múltiplos sentidos. E como interroga Drummond, em Procura da poesia (1987, p. 111,112) – “Trouxeste a chave?” –, a resposta cabe sempre na medida da sensibilidade e do horizonte de expectativa de cada leitor. Ao final, recorremos mais uma vez a Alfredo Bosi quando enfatiza que, resta ao poeta, além da própria consciência de sua rejeição num mundo onde se perdeu “a grandeza heróica e sagrada dos tempos originários” (2001, p. 173), edificar a poesia-resistência no vazio de seu próprio deserto, como fênix renascida das cinzas. É assim que vemos a poética desse ilustre poeta pernambucano, natural de Jaboatão dos Guararapes, que tão bem soube representar aspectos universais da condição humana. Os que não tiveram o privilégio de conhecê-lo pessoalmente – como tivemos oportunidade de vê-lo falando de suas experiências como jornalista e como sociólogo –, poderão fazê-lo através de sua obra, esse limbo fértil de matéria colhida na realidade emergente captada pelo olhar sensível do poeta, cuja transcendência se faz ad infinitum no potencial simbólico da palavra-poética. Neste sentido, a poesia de Alberto da Cunha Melo se universaliza, conferindo-lhe lugar de destaque na galeria dos grandes poetas da modernidade e de todos os tempos. Para todos esses bardos, vale a saída apontada por Alfredo Bosi (1987, p. 175), de que a poesia trilhará “a senda aberta pelos românticos e pelos simbolistas inventando mitologias libertadoras como resposta consciente e desamparada às tensões violentas que se exercem sobre a estrutura mental dos poetas”.
REFERÊNCIAS BARBOSA, João Alexandre. A metáfora crítica. São Paulo: Perspectiva, 1974. CARA,
Salete de Almeida. A poesia lírica. 2. ed. São
Paulo: Ática, 1986. CARONE NETO, Modesto. A poética do silêncio. São Paulo: Perspectiva, 1979. BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 44. ed. São Paulo: Cultrix, 1994. _____ . Org. Leitura da poesia. São Paulo: Ática, 2001. _____ . Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. _____ . O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2001. ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 19 livros de poesia. Vol. 1. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987. ELIOT, T.S. De poesia e poetas. São Paulo: Brasiliense, 1991. GREIMAS, A. J. Ensaios de semiótica poética. São Paulo: Cultrix, 1976. MELO, Alberto da Cunha. Dois caminhos e uma oração. São Paulo: A Girafa Editora, 2003. _____
. Dez poemas políticos. In: Soma dos sumos. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1983. _____
. Meditação sob os lajedos.
Natal: EDUFRN, 2002. _____
. Poemas anteriores. Recife: Bagaço, 1989. _____
. Soma dos sumos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.
[1] Retranca é um breve poema, de forma fixa, formado por onze versos distribuídos em quatro estrofes assim constituídas: um quarteto com rimas ou assonância nos 2º e 4º versos; um dístico com rimas ou assonâncias emparelhadas; um terceto rimado ou assonantado nos 1º e 3º versos; e um dístico com rima, ou seja, emparelhado com predomínio de rimas consonantais. Conforme o poeta e crítico César Leal, essa forma assim fora batizada, pelo próprio Alberto, não só em virtude de os onze versos estarem dispostos em armação tática de defesa, como no futebol, mas também porque retranca, nos tempos da linotipo, era a marcação da matriz de chumbo das páginas do jornal em seus tempos do Jornal do Commercio. (Cf. entrevista do autor, concedida ao jornalista André de Sena, Jornal de Campina Grande, PB, em 14/12/2002, Caderno Vida, p.3, e em depoimentos críticos de César Leal publicados no Diario de Pernambuco nos dias 13/07 e 03/08 de 1998). |
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