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Em termos de reconhecimento do público, a obra de Alberto da Cunha Melo passa por caso semelhante ao que ocorreu com a de Dante Milano - apesar de admirados, seus livros não são lidos na mesma proporção. A isso soma-se a relativa baixa procura que uma poesia mais formal tem recebido, em função de uma tendência à supervalorização da performance em detrimento da profundidade.
Como resistência, acaba de ser lançado 'O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos'. Resistência em vários sentidos, se considerarmos também as temáticas abordadas pelo poeta, que atravessam as situações mais comezinhas rumo ao questionamento da existência humana. O cotidiano povoado de cenas cruas é usado como ponte para a transcendência das idéias, parentesco que situa Cunha Melo com seus conterrâneos Bandeira e João Cabral. Aliás, o apuro técnico aplicado aos temas simples segue, de certa forma, a linha mais tradicional da poesia cantada.
A primeira parte do livro é composta por renkas, uma forma extinta de poesia japonesa que precedeu o hai-kai. Cada estrofe é composta por cinco versos, dos quais os dois últimos irão se repetir no início da estrofe seguinte. Essa disposição dos q versos evoca um paralelismo de idéias que, aliado à rima (esta nada menos que o recurso mais prazeroso da repetição poética), constitui o fundamento da própria poesia. O recurso do paralelismo remonta às formas ancestrais das formas poéticas, quando a palavra se submetia à música e à dança, associada aos ritos, mitos e magias dos povos primitivos. No caso da poesia escrita, ao se ler por duas vezes as sentenças, as imagens e idéias são reforçadas no novo conjunto. O que à primeira vista poderia soar como redundante acaba por suscitar uma experiência tão agradável quanto ler/ouvir as trovas medievais ou um cordel.
No restante do livro, são apresentados poemas esparsos, em muitos dos quais o poeta cria novas formas fixas, estabelecendo uma relação com as vanguardas literárias - às quais não aderiu, salienta numa nota, porém respeitando-as. Cunha
Melo parece realizar suas experiências do verso para dentro, e não o contrário. Isso pode afastar o leitor que espera da literatura uma parafernália visual (em formato de roda reinventada), mas oferta um tipo de poesia essencial baseada na palavra.
A poesia é a mais aguda forma de manifestação da palavra escrita. Por meio da desordenação - e a possível conseqüente reordenação - da perspectiva íntima da vida, o poder silencioso dos versos '(...) nesta casa; ninguém pode morrer dormindo; tem de acordar para morrer; que agonizar é seu destino;// ouçam os pássaros, lá fora/ eles cantam o aqui e o agora.' A agonia humana diante da placidez inexpugnável da natureza parece ser uma temática recorrente no livro, como se filtrasse a vivência árida e cáustica da realidade social nordestina - e, por extensão, brasileira. 'O cão de olhos amarelos...', como aponta a cor explicitada no título, a dor como etapa necessária para a vida - 'Pra cantar o
desconhecido/ é preciso dormir/ com as fêmeas feridas; e ensiná-las, de novo, o caminho da volta'.
Numa época na qual, em meio à diversidade formal e temática, sobressaem-se manifestaç6es poéticas voltadas para uma prática circense e pirotécnica, merece atenção a resistência de artistas, como Cunha
Melo, que se preocupam mais com dificuldade técnica de uma escrita simples.
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