Por Henrique Rodrigues

Livro celebra os 40 anos de atividade literária do pernambucano Alberto da Cunha Melo

                            © Jornal do Brasil, 19.08.2006 

 


Em termos de reconheci­mento do público, a obra de Alberto da Cunha Melo passa por caso semelhante ao que ocorreu com a de Dante Milano - apesar de admirados, seus livros não são lidos na mesma proporção. A isso soma-se a relativa baixa procura que uma poesia mais formal tem recebido, em função de uma tendência à supervalorização da performance em detrimento da profundidade.

Como resistência, acaba de ser lançado 'O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos'. Resistência em vários sentidos, se considerarmos também as temáticas abordadas pelo poeta, que atravessam as situações mais comezinhas rumo ao questionamento da existência humana. O cotidiano povoado de cenas cruas é usado como ponte para a transcendência das idéias, parentesco que situa Cunha Melo com seus conterrâneos Bandeira e João Cabral. Aliás, o apuro técnico aplicado aos temas simples segue, de certa forma, a linha mais tradicional da poesia cantada.

A primeira parte do livro é composta por renkas, uma forma extinta de poesia japonesa que precedeu o hai-kai. Cada estrofe é composta por cinco versos, dos quais os dois últimos irão se repetir no início da estrofe seguinte. Essa disposição dos q versos evoca um paralelismo de idéias que, aliado à rima (esta nada menos que o recurso mais prazeroso da repetição poética), constitui o fundamento da própria poesia. O recurso do paralelismo remonta às formas ancestrais das formas poéticas, quando a palavra se submetia à música e à dança, associada aos ritos, mitos e magias dos povos primitivos. No caso da poesia escrita, ao se ler por duas vezes as sentenças, as imagens e idéias são reforçadas no novo conjunto. O que à primeira vista poderia soar como redundante acaba por suscitar uma experiência tão agradável quanto ler/ouvir as trovas medievais ou um cordel.

No restante do livro, são apresentados poemas esparsos, em muitos dos quais o poeta cria novas formas fixas, estabelecendo uma relação com as vanguardas literárias - às quais não aderiu, salienta numa nota, porém respeitando-as. Cunha Melo parece realizar suas experiências do verso para dentro, e não o contrário. Isso pode afastar o leitor que espera da literatura uma parafernália visual (em formato de roda reinventada), mas oferta um tipo de poesia essencial baseada na palavra.

A poesia é a mais aguda forma de manifestação da palavra escrita. Por meio da desordenação - e a possível conseqüente reordenação - da perspectiva íntima da vida, o poder silencioso dos versos '(...) nesta casa; nin­guém pode morrer dormindo; tem de acordar para morrer; que agonizar é seu destino;// ouçam os pássaros, lá fora/ eles cantam o aqui e o agora.' A agonia humana diante da placidez inexpugnável da natureza pare­ce ser uma temática recorrente no livro, como se filtrasse a vi­vência árida e cáustica da realidade social nordestina - e, por extensão, brasileira. 'O cão de olhos amarelos...', como aponta a cor explicitada no título, a dor como etapa necessária para a vida - 'Pra cantar o desconhecido/ é preciso dormir/ com as fêmeas feridas; e ensiná-las, de novo, o caminho da volta'.

Numa época na qual, em meio à diversidade formal e temática, sobressaem-se manifestaç6es poéticas voltadas para uma prática circense e pirotécnica, merece atenção a resistência de artistas, como Cunha Melo, que se preocupam mais com dificuldade técnica de uma escrita simples. 

 

 

Leia mais:

 

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas) DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio) HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)Tradição dos extremos (editoria da revista Continente Multicultural. Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006"A poesia não é uma mercadoria". IVANA MOURA entrevista Alberto da Cunha Melo. Diario de Pernambuco, Recife, domingo, 07 de maio de 2006, Caderno Viver, p. 08. Alberto da Cunha Melo. 40 anos de poesia, por ASTIER BASÍLIO. Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba. João Pessoa, domingo, 07 de maio de 2006. Identidade e variantes de Alberto da Cunha Melo, por IZACYL GUIMARÃES FERREIRA (Portal da UBE-SP - Estudos e Resenhas) O cão de olhos amarelos, por WALTER CABRAL DE MOURA. Jornal do Commercio, Opinião, 06 de junho de 2006. A metáfora do vazio na poesia de Alberto da Cunha Melo , por LILIANE MARIA JAMIR E SILVA. Ensaio acadêmico inédito.  O cão de olhos amarelos, por ÁLVARO ALVES DE FARIA. Rascunho, 23 de junho de 2006. A técnica da escrita simples, por Henriques Rodrigues. Jornal do Brasil, Jornal do Brasil, 19.08.2006 

 

Homenagens: Alberto da Cunha Melo, por FRANCISCO SOARES. Colagem feita com versos de Alberto Ao mestre com total respeito, por ANTÔNIO MARINHO. Paráfrase do poema "Aos mestres com desrespeito", de Alberto da Cunha Melo "Heróis Brasileiros" , (Coluna Direto ao Assunto, do Jornal da Paraíba) JOSÉ NÊUMANNE PINTO

   
 
 

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