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Em
26 de agosto, 1972, estive frente a frente com uma das maiores
personalidades literárias brasileiras, o poeta Joaquim Cardozo.
Tenso, como uma pedra, lembrava-me que o jornalista Lazio Kovacs
foi conversar com o poeta Ezra Pound, em Veneza, e entrevistou o
silêncio. Pound, um dos maiores expoentes da poesia moderna
mundial, recusou-se a falar de literatura. Aos 86 anos, 13 dos
quais passados encarcerado como traidor de sua pátria, os Estados
Unidos, o autor do famoso poema inacabado “Cantos”, desencantou-se
com a palavra (após ter feito com ela o que bem quis e através
dela ter alcançado um extraordinário prestígio no Ocidente), o
nosso Drummond se recusava terminantemente a dar entrevistas e
foram raras as oportunidades em que tivemos o poeta e sua lavra de
palavras ao vivo. Essas divagações diziam da expectativa de não
conseguir a entrevista com o então arredio mestre. Mas o encontro
aconteceu e se tornou uma das mais importantes experiências minhas
como repórter e como poeta. Por isso, meus milhões de leitores,
entro no túnel do tempo e registro os momentos especiais com
Cardozo, em que a genialidade de suas palavras eterniza-se
necessariamente para todos, especialmente para aqueles que
cultivam a arte poética.
EM OUTRA VENEZA
Em outra Veneza, a brasileira, um repórter mestiço aproxima-se com
certa timidez de uma velha casa do Espinheiro, então residência do
poeta Joaquim Cardozo, que possui inúmeros pontos de coincidência
com Pound: poliglota, vanguardista, descobridor de talentos e,
principalmente, grande poeta. Cardozo, que completara 76 anos,
estava vestido com um leve pijama azulado e conversava com uma
pessoa de sua família. A minha chegada transtornou o ambiente,
obrigando as gentis irmãs do poeta, as “três Marias”, como ele o
diz carinhosamente, a se deslocarem com o televisor portátil para
outro aposento.
A imagem amarga e silenciosa de Pound vai desaparecendo da cabeça
do jornalista e dando lugar a outra, a de um “tio tranqüilo”.
Diante de mim está um homem magro e encanecido, mas cheio daquela
paciência conquistada a custo de muito desespero triturado, de
muito angústia vencida na própria foz. Apesar de não ter passado
pelas agruras por que passou Pound, o poeta brasileiro foi alvo de
ciladas perversas, de muito mal-entendido consciente e do
voluntário esquecimento por parte de alguns críticos da
literatura. Mas, ao contrário de Pound, sua voz continuou límpida
e pródiga, como convém a um grande artista da palavra, seguro de
suas dimensões e desígnios.
DA MANGA AO CAJU
De início, após ter desistido de trocar o pijama por outras roupas
menos amigas, Cardozo fala sobre aquela pequena mangueira defronte
do casarão e informa que está acompanhando a sua floração. Todas
as manhãs, um regalo que lhe faltava no Rio. Da manga ao caju foi
um passo. O repórter aproveita a oportunidade para perguntar sobre
o poema “Chuva de Caju” e o poeta conta as circunstâncias que o
determinaram.
– Eu estava lendo quando, de repente, ouvi ruídos de
passos, como se alguém acabasse de entrar na sala. Logo
percebi que era a chuva, uma chuva de grossos pingos, que pulava
pela janela e invadia o aposento.
E lembra que morava nessa época no “Beco do Caju”, o que explica o
título da obra-prima. Daí em diante, a conversa vai ficando
animada e uma pergunta surge sobre como se estava sentindo no
regresso à capital pernambucana. Cardozo diz que, apesar de ter
passado 32 anos no Rio de Janeiro, sentia-se “como se nunca
tivesse saído daqui”.
ARISTÓTELES MENOR QUE PLATÃO
Não é difícil conversar com Joaquim Cardozo, embora não seja fácil
ser para ele um bom interlocutor. Os homens eruditos sofrem de uma
espécie de solidão coloquial. A massa de informações que possui
sobre diversos assuntos anula inocentemente as tímidas investidas
da maioria dos interlocutores. O poeta preenche os vagos da
conversação quando ela envereda por áreas só por ele dominadas. E
o assunto livros é território de Joaquim Cardozo por excelência,
por direito de conquista. O poeta aprecia os velhos autores. O
nome de Aristóteles, não sei por quê, cai na sala de repente.
Enchem agora a sala os autores medievais e são apresentados por
Cardozo como velhos conhecidos. Após a saída deles, o tempo vai se
encurtando e já estamos perto dA Montanha Mágica de Thomas Mann,
uma de suas grandes admirações. Depois de contar o enredo do
romance, o poeta começa a se queixar da falta que lhe está fazendo
a sua vasta biblioteca, deixada temporariamente no Rio.
É PRECISO LER MUITO
Achando que perguntou pouco sobre a própria obra do entrevistado,
o distônico repórter, em certo momento, pede-lhe uma explicação
sobre alguns trechos do seu grande poema “Visão do Último Trem
Subindo ao Céu”, particularmente sobre aquelas passagens em que
utiliza símbolos e sugestões das ciências exatas. Após esboçar uma
tentativa de esclarecimento, Cardozo compreende que não pode ser
acompanhado em seu raciocínio e diz: “É preciso ler muito”. A
frase, que pode ser dita por qualquer mestre-escola, ganha um peso
especial quando pronunciada por um “imenso” poeta e tem um efeito
duradouro e forte na consciência do assustado repórter,
repercutindo, alastrando-se. O conselho do manso e encanecido
poeta, dado assim com aquele ar de um tio cansado, que acaba de
chegar de uma longa viagem, é mais do que o fecho esperado para
esta reportagem, dirigida principalmente para os jovens escritores
brasileiros. É noite e o poeta do “Signo Estrelado”, que vem sendo
freqüentemente visitado, precisa recolher-se aos seus livros, às
suas lembranças, aos novos e revolucionários poemas. O repórter,
como qualquer vendedor de livros embaraçado, sai mais humilde do
que entrou. Despede-se de Joaquim Cardozo e de suas três irmãs e
volta para o planeta das urgências rasas, onde é engolido pela
escuridão e pelo esquecimento, nessa bela hora em que “as estrelas
passam sobre Olinda”.

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