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É preciso ler muito. Joaquim Cardozo

Por ALBERTO DA CUNHA MELO 

 

© Revista Continente Multicultural, edição n. 81, setembro de 2007 . Coluna MARCO ZERO, Ilustração de Bueno.

 


           Em 26 de agosto, 1972, estive frente a frente com uma das maiores personalidades literárias brasileiras, o poeta Joaquim Cardozo. Tenso, como uma pedra, lembrava-me que o jornalista Lazio Kovacs foi conversar com o poeta Ezra Pound, em Veneza, e entrevistou o silêncio. Pound, um dos maiores expoentes da poesia moderna mundial, recusou-se a falar de literatura. Aos 86 anos, 13 dos quais passados encarcerado como traidor de sua pátria, os Estados Unidos, o autor do famoso poema inacabado “Cantos”, desencantou-se com a palavra (após ter feito com ela o que bem quis e através dela ter alcançado um extraordinário prestígio no Ocidente), o nosso Drummond se recusava terminantemente a dar entrevistas e foram raras as oportunidades em que tivemos o poeta e sua lavra de palavras ao vivo. Essas divagações diziam da expectativa de não conseguir a entrevista com o então arredio mestre. Mas o encontro aconteceu e se tornou uma das mais importantes experiências minhas como repórter e como poeta. Por isso, meus milhões de leitores, entro no túnel do tempo e registro os momentos especiais com Cardozo, em que a genialidade de suas palavras eterniza-se necessariamente para todos, especialmente para aqueles que cultivam a arte poética.

EM OUTRA VENEZA

Em outra Veneza, a brasileira, um repórter mestiço aproxima-se com certa timidez de uma velha casa do Espinheiro, então residência do poeta Joaquim Cardozo, que possui inúmeros pontos de coincidência com Pound: poliglota, vanguardista, descobridor de talentos e, principalmente, grande poeta. Cardozo, que completara 76 anos, estava vestido com um leve pijama azulado e conversava com uma pessoa de sua família. A minha chegada transtornou o ambiente, obrigando as gentis irmãs do poeta, as “três Marias”, como ele o diz carinhosamente, a se deslocarem com o televisor portátil para outro aposento.
A imagem amarga e silenciosa de Pound vai desaparecendo da cabeça do jornalista e dando lugar a outra, a de um “tio tranqüilo”. Diante de mim está um homem magro e encanecido, mas cheio daquela paciência conquistada a custo de muito desespero triturado, de muito angústia vencida na própria foz. Apesar de não ter passado pelas agruras por que passou Pound, o poeta brasileiro foi alvo de ciladas perversas, de muito mal-entendido consciente e do voluntário esquecimento por parte de alguns críticos da literatura. Mas, ao contrário de Pound, sua voz continuou límpida e pródiga, como convém a um grande artista da palavra, seguro de suas dimensões e desígnios.

DA MANGA AO CAJU

De início, após ter desistido de trocar o pijama por outras roupas menos amigas, Cardozo fala sobre aquela pequena mangueira defronte do casarão e informa que está acompanhando a sua floração. Todas as manhãs, um regalo que lhe faltava no Rio. Da manga ao caju foi um passo. O repórter aproveita a oportunidade para perguntar sobre o poema “Chuva de Caju” e o poeta conta as circunstâncias que o determinaram.
– Eu estava lendo quando, de repente, ouvi ruídos de
passos, como se alguém acabasse de entrar na sala. Logo
percebi que era a chuva, uma chuva de grossos pingos, que pulava pela janela e invadia o aposento.
E lembra que morava nessa época no “Beco do Caju”, o que explica o título da obra-prima. Daí em diante, a conversa vai ficando animada e uma pergunta surge sobre como se estava sentindo no regresso à capital pernambucana. Cardozo diz que, apesar de ter passado 32 anos no Rio de Janeiro, sentia-se “como se nunca tivesse saído daqui”.

ARISTÓTELES MENOR QUE PLATÃO

Não é difícil conversar com Joaquim Cardozo, embora não seja fácil ser para ele um bom interlocutor. Os homens eruditos sofrem de uma espécie de solidão coloquial. A massa de informações que possui sobre diversos assuntos anula inocentemente as tímidas investidas da maioria dos interlocutores. O poeta preenche os vagos da conversação quando ela envereda por áreas só por ele dominadas. E o assunto livros é território de Joaquim Cardozo por excelência, por direito de conquista. O poeta aprecia os velhos autores. O nome de Aristóteles, não sei por quê, cai na sala de repente. Enchem agora a sala os autores medievais e são apresentados por Cardozo como velhos conhecidos. Após a saída deles, o tempo vai se encurtando e já estamos perto dA Montanha Mágica de Thomas Mann, uma de suas grandes admirações. Depois de contar o enredo do romance, o poeta começa a se queixar da falta que lhe está fazendo a sua vasta biblioteca, deixada temporariamente no Rio.

É PRECISO LER MUITO

Achando que perguntou pouco sobre a própria obra do entrevistado, o distônico repórter, em certo momento, pede-lhe uma explicação sobre alguns trechos do seu grande poema “Visão do Último Trem Subindo ao Céu”, particularmente sobre aquelas passagens em que utiliza símbolos e sugestões das ciências exatas. Após esboçar uma tentativa de esclarecimento, Cardozo compreende que não pode ser acompanhado em seu raciocínio e diz: “É preciso ler muito”. A frase, que pode ser dita por qualquer mestre-escola, ganha um peso especial quando pronunciada por um “imenso” poeta e tem um efeito duradouro e forte na consciência do assustado repórter, repercutindo, alastrando-se. O conselho do manso e encanecido poeta, dado assim com aquele ar de um tio cansado, que acaba de chegar de uma longa viagem, é mais do que o fecho esperado para esta reportagem, dirigida principalmente para os jovens escritores brasileiros. É noite e o poeta do “Signo Estrelado”, que vem sendo freqüentemente visitado, precisa recolher-se aos seus livros, às suas lembranças, aos novos e revolucionários poemas. O repórter, como qualquer vendedor de livros embaraçado, sai mais humilde do que entrou. Despede-se de Joaquim Cardozo e de suas três irmãs e volta para o planeta das urgências rasas, onde é engolido pela escuridão e pelo esquecimento, nessa bela hora em que “as estrelas passam sobre Olinda”.

 

 

 

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