A natureza da poesia é, portanto, virtual.
(Ermelinda Ferreira)

Por ALBERTO DA CUNHA MELO 

Ao contrário da maior parte dos ficcionistas, a maioria dos poetas (pelo menos aqueles do meu conhecimento) não é muito chegada a estabelecer uma regularidade para o ato de escrever. Enquanto não é difícil encontrar ficcionistas que escrevem diariamente, a coisa mais rara do mundo é localizar um poeta que o faça. O ato de escrever poesia ainda está sobrecarregado de certa sacralidade, enquanto o exercício da prosa, da prosa literária, de ficção, é algo mais burguês e secularizado.

Não é à toa que, na lista dos livros mais vendidos, a prosa de ficção sempre está a muitos quilômetros à frente de qualquer volume de poesia. Pelo menos aqui no Ocidente a prosa de ficção é a atividade literária que mais se ajustou ao gosto e às aspirações da sociedade capitalista, “emergente” ou não. O tônus da sacralidade (que considero um indicador sociológico de tradicionalismo) é mais uma barreira, um estereótipo, a distanciar o produto poético da condição de mercadoria.

Não sou favorável a que tudo neste mundo — do amor erótico ao filial, dos valores religiosos aos valores artísticos — se transforme em mercadoria. Mas arte é fazer, e o esforço quase braçal dos pintores necessariamente não impediu o triunfo da pintura em vários séculos. A atividade dos pintores é uma lição para os poetas. Quando vejo Miguel dos Santos construir uma belíssima obra agindo como um operário, pois chega todos os dias pela manhã ao seu ateliê e trabalha até o anoitecer, mais e mais se confirma em mim a idéia de que arte é também (ou principalmente, às vezes) trabalho, mesmo a arte poética.

A sacralidade do poético explicita-se, manifesta ou latentemente, no culto à inspiração, muito caro à tradição poética e, em particular, à poética do Romantismo (os teóricos espíritas talvez resolvessem isso conceituando mediunicamente a “inspiração). Daí uma tão equivocadamente aplaudida semi-esterilidade dos poetas, “que só devem escrever quando estão “inspirados”. Sacralizar a atividade poética é, também, dispensá-la do mundo dos homens comuns, marginalizá-la, reforçar-lhe o estigma platônico.

Sou daqueles que defendem o exercício diário da poesia, e procuro fazê-lo na medida do possível. É preciso que os poetas criem o hábito de escrever como se adquire o hábito de ler ou de fumar. E os poetas, mais que os ficcionistas, estão precisando submeter-se ao esforço quotidiano de manipular o mundo simbólico, de testar, dia e noite, os recursos expressivos da linguagem.

Aliado ao hábito de escrever diariamente, devem ainda cultivar a saudável humildade de sempre autocriticar impiedosamente tudo que escreve, rasgando sempre o que considerar imprestável. O perigo de escrever pouco é maior do que o de se escrever muito (falo em escrever e não em publicar), porque a tendência de quem escreve pouco é sempre aproveitar o máximo do pouco que escreveu, e o comum mesmo é aproveitar todo esse máximo. Ora, quanto menor o número de poemas escritos, menor o número de alternativas para a escolha. Não defendo uma perspectiva meramente quantitativa da arte, e muito menos da arte da poesia, o que defendo mesmo é a prática diária, é o hábito, o vício de escrever. Acho que essa atitude, quando menos, leva ao aperfeiçoamento formal, principalmente se o artista está interessado mesmo em aperfeiçoar-se.

Uma fórmula provisória: escrever e rasgar muito, mas só publicar o mínimo possível, ou digitar e deletar muito, conforme o jargão da nova era virtual. Essas anotações, meus milhões de leitores, eu as escrevi em 28 de abril de 1978. Fazem parte de quatro volumes – quase mil páginas manuscritas – do livro inédito A noite da longa aprendizagem. Notas à margem do trabalho poético. Abro o registro sem demover-me da proposta do exercício poético, mesmo neste novo suporte de resistência: o “ciberespaço”, onde “opera-se uma mudança de uso, de natureza do público e de sua relação com o texto, o que representa novos desafios”, como tão bem assegura em inusitado ensaio, a escritora Ermelinda Ferreira, no prefácio do livro poetas@independentes (Livro Rápido, 2007).

Metamorfoseada no vir-a-ser, a poesia é, sempre, virtual. Mas eu sou um construtivista incurável, como informei na minha mais recente entrevista ao grande poeta paulista Álvaro Alves de Faria, em maio deste ano de 2007. E mais, embora meu primeiro rascunho surja de uma palavra, um fato, um romance etc., como produto final, o poema só surge depois de até seis versões, é um trabalho desesperado. Portanto, para mim, a poesia só se presentifica plena na fornalha do trabalho artístico, cujo resultado, o poema, revele-a enquanto tecnologia de ponta da palavra.

 

© Revista Continente Multicultural, edição n. 82, outubro de 2007 . Coluna MARCO ZERO, Ilustração de Bueno.

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas) DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio) HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)Tradição dos extremos (editoria da revista Continente Multicultural. Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006"A poesia não é uma mercadoria". IVANA MOURA entrevista Alberto da Cunha Melo. Diario de Pernambuco, Recife, domingo, 07 de maio de 2006, Caderno Viver, p. 08. Alberto da Cunha Melo. 40 anos de poesia, por ASTIER BASÍLIO. Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba. João Pessoa, domingo, 07 de maio de 2006. Identidade e variantes de Alberto da Cunha Melo, por IZACYL GUIMARÃES FERREIRA (Portal da UBE-SP - Estudos e Resenhas) O cão de olhos amarelos, por WALTER CABRAL DE MOURA. Jornal do Commercio, Opinião, 06 de junho de 2006. A metáfora do vazio na poesia de Alberto da Cunha Melo , por LILIANE MARIA JAMIR E SILVA. Ensaio acadêmico inédito.  O cão de olhos amarelos, por ÁLVARO ALVES DE FARIA. Rascunho, 23 de junho de 2006. A técnica da escrita simples, por Henriques Rodrigues. Jornal do Brasil, Jornal do Brasil, 19.08.2006  Diálogo cortante com Kafka nos poços profundos da angústia, por IVAN JUNQUEIRA. O Estado de S. Paulo, 26 (domingo) de novembro de 2006. Caderno 2.

Homenagens: Alberto da Cunha Melo, por FRANCISCO SOARES. Colagem feita com versos de Alberto Ao mestre com total respeito, por ANTÔNIO MARINHO. Paráfrase do poema "Aos mestres com desrespeito", de Alberto da Cunha Melo "Heróis Brasileiros" , (Coluna Direto ao Assunto, do Jornal da Paraíba) JOSÉ NÊUMANNE PINTO O poeta imortal que não vemos, por URARIANO MOTA Alberto da Cunha Melo: Um ressuscitador da Poética, por André Maranhão Santos Alberto da Cunha Melo, por IVAN MARINHO. (Poema)

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