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A definição de cultura de Max Scheler (1874 – 1928): “Cultura é uma categoria do ser, não do saber e do sentir”, sempre foi, para mim, um milagre de aprofundamento de um conceito. Tal definição empobreceu todas as outras de natureza antropológica, sociológica, restrita ou operacional. Esta visão, mais milagrosa que ontológica, pode ter inspirado antecipadamente o grande poeta alemão, admiradíssimo por Goethe, Johann Gottfried Herder (1744 – 1803), ao dizer: “O verdadeiro poeta só deve escrever na língua materna”. Nós temos em língua portuguesa o exemplo de verdadeiro e grande poeta, Fernando Pessoa, que ficou famoso pelos seus poemas em português e não em inglês, a não ser para “essas gloriosas carcaças petulantes” (Agripino Grieco).
T.S. Eliot foi até condescendente ao dizer que se poderia até pensar em língua alienígena, mas não sentir. Herder vai mais longe, ao dizer que “abraçaria a terra que é a minha mãe, pois o seu idioma deve ser a minha musa”. Esse nacionalismo de um poeta, como Herder, é algo parecido com amor ao próximo, (homens, árvores, águas) com a consciência de que faz parte de toda a espécie humana. Ou, mais simplesmente, ao escrever com essa visão, cria uma obra universal.
Ao acreditar que a língua materna condiciona nosso modo de pensar, nosso intelecto, e até nosso aparelho fonador, Herder tenta mostrar que todo o seu mecanismo e exigências foram feitos exclusivamente para nós porque, além de tudo, como grande filósofo que também era, compreendia que a língua é uma força unitária dentro da confusa multiplicidade de línguas.
Assim como Herder tem uma forte ligação com a língua, ao mesmo tempo poética e filosófica, as variadas categorias de homens usam e valorizam seu idioma de um modo particular. A grande maioria dá a ele exclusivamente o uso de comunicação oral. Os que sabem escrever dão um duplo uso, o da comunicação oral e o da escrita. Esta continua sempre presente no dia-a-dia de diversas profissões. A comunicação escrita atinge uma maior complexidade nos meios de comunicação impressa, os periódicos e os livros, o átomo e a luz. Por todos esses meios perpassa a alma da Língua, seu espírito ancestral. Alguns de seus códigos podem mudar, mas a sua alma, jamais.
Seja há 5.000 anos a.C. ou 50.000 anos A.C. , na discordância dos antropólogos, o surgimento da escrita não importa, nem que sua aparição marcasse o fim da pré-história. Em todas as línguas do mundo a poesia é a quintessência da linguagem humana e, como disse Ezra Pound, “os artistas (poetas) são as antenas das raças”. No mundo arcaico e ágrafo, as aldeias se reúnem em seus rituais para dançar e cantar, geralmente um conjunto de palavras repetitivas, paralelísticas. Essa é a época, poderia se dizer, da poesia oral, da proto-poesia. No século 9 a.C. viveu Homero, considerado o maior poeta de todos os tempos. Vivia peregrinando por toda a Grécia e declamando trechos de seus dois grandes poemas épicos, Ilíada e Odisséia, transmitindo-os oralmente. Não fosse o arconte persa de Atenas, Pisistrato, séculos depois, mandando pôr na escrita por uma equipe comandada por Solon, as duas obras se dispersariam no tempo.
A escrita deu ao idioma integridade e perenidade. Os idiomas de todos os povos ganharam perpetuidade. O latim não é uma língua morta. Sua alma acendeu uma rede de línguas e paira, no mundo, na poesia de Horácio, Virgílio e Ovídio, autor do poema “O Poder da Poesia”, de que vale citar um pequeno trecho: “Os versos/ fazem descer os cornos da sangrenta lua/ e recuar os corcéis do Sol, brancos de neve;/ o canto esmaga a fauce aberta da serpente/ e faz retroceder à fonte a água corrente.” As línguas ditas mortas são o berço de outras línguas.
Todo grande poeta ama a sua língua natal e procura fazer dela a linguagem original de sua poesia. Ele é o guardião da beleza da língua que o ensinou a murmurar nos quartos escuros e decorar o que ia dizer à primeira namorada. Na mina de seu idioma, ele sabe encontrar a pepita mais brilhante, e sabe combinar estranhamente suas luzes no poema imortal. Mas, há também os poetas médios e pequeninos. Eles retiram o que podem daquela mina do idioma. A poesia é uma montanha que só faz crescer: os grandes poetas acrescentam-lhe um rochedo, os pequenos poetas nela depositam a sua pedrinha.
Quando Guillaume de Machant criou a sua Nouvelle Rhétorique, no século 14, afastando a poesia da música, deu ao poema a sua autonomia e, ao mesmo tempo, reduziu o seu público. O que a poesia perdeu em público, ganhou em expressão, em complexidade e beleza. Basta enumerar os grandes poetas europeus, cada um em seu idioma, realizando maravilhas estéticas. O que era, na Idade Média, cantiga trovadoresca, ao som da viola e do alaúde, hoje é a canção popular, geralmente com refrão e paralelismo, que é repetição em qualquer parte da "letra".
Enquanto o idioma materno pulsa num grande poema ou num desafio de violeiros repentistas, uma grande parte da canção popular, no Brasil, presta reverência exagerada ao inglês.
@ Ilustração de Bueno
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