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Meu amigo Pedro Vicente emprestou, a mim e a Cláudia, quatro volumes da obra de Miguel Torga, que é volumosa nos campos da ficção, poesia, teatro, textos doutrinários e ensaios. Como pelo gigante se conhece o pé, os quatro volumes não me fazem um especialista, mas apenas um mero admirador. Duvido que as novas gerações o conheçam. Quando tinha 12 anos, trouxeram-lhe para o Brasil, onde passou a sua adolescência, e foi levado de volta para a terrinha em 1925, 13 anos depois. Não teve, propriamente, vida literária em nosso país. Miguel Torga é seu pseudônimo, pois seu nome verdadeiro era Adolfo Correia Rocha, nascido em São Martinho de Anta, em 12 de agosto de 1907, e falecido, em Coimbra. Este ano é o do centenário do seu nascimento, e uma das homenagens mais duradouras será o projeto Espaço Miguel Torga, que custará um milhão de euros à prefeitura de Sobrosa e que ficará situado em São Martinho da Anta.
Trechos de sua obra são frequentemente citados nos discursos dos políticos e autoridades, assim como acontece com a obra de Drummond. Escritor prolífico, que se deu bem em todos os gêneros, é como poeta que é mais admirado em um grande número de países ocidentais e orientais. Sua poesia, ou grande parte dela, está nos 16 volumes do Diário ou livros autônomos.
Fazer uma resenha sobre a obra de um poeta de grande magnitude, como Miguel Torga, obriga-nos, e meus milhões de leitores o sabem muito bem, em transcrever um pequeno fragmento de sua obra:
Maceração
Breves dias da vida.
Aprendi neles apenas a morrer.
Desde a manhã brumosa da partida
A este anoitecer
Sombrio da chegada,
Foi sempre o pesadelo de antever
O desfecho fatal da caminhada.
E pergunto a quem vim
Assim
Clarividente.
Perdido e consciente
Da minha perdição,
Contra o instinto de conservação
A durar no meu corpo eternamente.
Eis uma linguagem meio-clássica, mantendo o costume tradicional de colocar, inclusive, em letras maiúsculas as iniciais de cada verso. No entanto, o poeta optou por estruturar seus poemas em versos livres. Por falta de ritmo, eu costumo chamar tal tipo de poema de crônica lírica, sem com isso interpor nenhum critério de valor, cada texto valendo por si mesmo. A linguagem de Torga é clara, limpa. No entanto, ela difere da de Juan Ramón Jiménez e Antonio Nobre, por exemplo, por constituir-se de certa densidade espiritual. É possível que entre os muitos seminários e palestras que serão realizados nos vários países que vão homenagear o grande poeta português, alguns deles talvez se interessem em confrontar a poesia dos três citados poetas latinos: Miguel Torga, Juan Ramón Jiménez e Antonio Nobre. Há muitas universidades envolvidas nas solenidades.
O Brasil, que já hospedou o poeta durante 13 anos de sua juventude, é um dos primeiros escolhidos para receber a grande exposição sobre a vida e a obra de Miguel Torga. Também está na agulha para receber a exposição a Universidade de Antuérpia, na Bélgica, segundo a delegada Regional de Cultura do Norte, Helena Gil. As perspectivas sobre a adesão de novos países e a captação de novos recursos fizeram os organizadores dos eventos não encerrarem mais as comemorações no dia 31 de dezembro próximo, mas prorrogá-las para 2008.
Homenagens internacionais a um poeta. Nem tudo está perdido.
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