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Por ALBERTO DA CUNHA MELO 

 

© Revista Continente Multicultural, edição n. 79, julho de 2007 . Coluna MARCO ZERO, Ilustração de Bueno.

 


            Nos velhos tempos – no “Recife, ano 446 da deglutição do Bispo Sardinha” – da coluna “Arte pela Arte”, do Jornal da Tarde, da qual fui colaborador, lembrei o movimento antropofágico de 1928, liderado por Oswald de Andrade, ao deparar-me com um diálogo entre um sacerdote e uma velha índia, no relato Atuação dos Jesuítas na Formação do Brasil, de Irineu Cavalcanti: 
           – “Minha avó, se eu lhe desse um pouco de açúcar, ou outro bocado saboroso de lá de minha terra, minha avó comeria?” 
Responde ela: 
           – “Meu neto, nenhuma coisa da vida desejo; tudo já me aborrece; só uma coisa me abriria o apetite: uma mãozinha de um tapuia de pouca idade, tenrinha, para chupar aqueles ossinhos, creio que, então, tomaria algum alento, mas, coitada de mim, não tenho quem vá flechá-lo.” 
           Não gosto de fazer citações longas, mas, essa, tenham paciência, não resisti em fazê-la, porque me mostra um outro lado da antropofagia brasileira, diferente do que eu estava acostumado a encontrar nos manuais. O fato ocorre antes de 1759, ano em que os jesuítas foram expulsos do Brasil. Os antropólogos me diziam que a antropofagia praticada por nossos índios era eminentemente ritualística. As palavras da velha índia me mostram que, por trás, vamos dizer assim, dessa função manifesta – para usar Robet K. Merton – pode esconder-se uma função latente, ou seja, é manifestamente ritualística e latentemente gastronômica, para não falar chic. 
           Para horror dos monótonos e delicados vegetarianos, confesso minha desconfiança de que a carne humana deve ser saborosa, tão saborosa que os pigmeus da Melanésia, dizem os Indiana Jones, a chamavam de “porco comprido”. 
           Dizem que o padre Anchieta ficava freqüentemente furioso quando sabia de colonos brancos mergulhados na antropofagia, como remotos precursores, às avessas, de nossos modernistas, a ponto de exclamar: “já se achou cristão a mastigar carne humana!” Quem sabe não seria carne de algum tapuia criança tão desejada pela velha índia? 
            Falando no modernismo antropofágico, tento lembrar que ele procurava absorver os valores alienígenas para reformulá-los em produto nativo de exportação. Isso seria um arremedo contra a tal da globalização que não é de hoje. Para nós, povos subdesenvolvidos, ela começou na década de 50. Ao invés de deglutir o bispo enlatado de uma cultura de massa, para transformá-la em coisa nossa, em criação autóctone, estamos sendo literalmente deglutidos e vomitados à imagem e semelhança dos grandes canibais. 
           Essa retomada antropofágica me veio, ao lembrar da mais que deglutida e vomitada arte, a arte poética. Nestes tempos da velocidade cibernética, ela gera um paroxismo: enquanto se afirma como instituição social, degrada o seu perfil estético. Por isso, gostaria de legar aos meus milhões de leitores, o nada antropofágico conceito de poesia, que tento engendrar desde que a arte poética me tomou a vida e me deixou vazios os bolsos. Um risco que só me anima a correr esse vergar dos anos debruçados em centenas de exemplares de teoria literária e coleções inumeráveis de pesquisas sobre o assunto, em diversas fontes, inclusive a mídia eletrônica. 
         Raciocinando em termos de condições necessárias e suficientes, utilizando o conceito de arte simbólica de Ernest Cassirer, o de linguagem descontínua de Olavo de Carvalho, e o de ritmo de Octávio Paz, além de outro atributo poético universal como a conotação, cheguei à seguinte e provisória definição de texto poético: 


• ser estruturado de modo descontínuo é condição necessária para um texto ser considerado como poesia, mas não é uma condição suficiente, porque há textos em prosa – um rol de roupa, por exemplo – de natureza descontínua, que não são poesia; 

• ser conotativo é condição necessária para um texto ser considerado como poesia, porque não há texto poético sem conotação, mas não é condição suficiente, porque os textos de prosa artística são de natureza conotativo-denotativa, mas não são poesia; 

• ser rítmico é a condição necessária para um texto ser considerado como poesia, mas não é condição suficiente, pois a prosa artística, a crônica, por exemplo, utiliza um certo ritmo, mas não é poesia. 


           A poesia seria, portanto, uma arte verbal conotativa, descontínua e rítmica? É pouco, mas pode gerar esta definição transitória: a poesia é uma linguagem simbólico-verbal, que se expressa de modo descontínuo, rítmico e conotativo. Em termos de método aristotélico de gênero e diferença específica, a definição seria a mesma, uma vez que a poesia pertenceria ao gênero (próximo) linguagem simbólico-verbal, e sua diferença específica em relação às outras espécies é que se expressa de modo descontínuo, rítmico e conotativo. 
            Desses raciocínios, cheguei a estas indefinições de poesia: sintonia fina da linguagem/ tecnologia de ponta da palavra/ quintessência da linguagem humana/ essência e consciência cósmica exteriorizadas existencialmente através do poema (poesia: essência; poema: existência). 
          Para Ernst Cassirer, a arte é linguagem simbólica. A literatura seria, então, linguagem simbólico-verbal. Para Olavo de Carvalho, a distinção entre verso e prosa é apenas uma distinção entre duas formas mais gerais da quantidade: a quantidade contínua e a quantidade descontínua; Para Octávio Paz, “sem ritmo, não há poema”. 

           Não sei se esses conceitos serão deglutidos e vomitados por quem chegou até esta linha, mas é o que, no momento, tenho de carne-poética para oferecer aos meus milhões leitores. 

 

 

 

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