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Desde o primeiro ano da década de 80 tive a honra de
conviver estreitamente com o Movimento dos Escritores
Independentes de Pernambuco, participando, inclusive, não sei se
do primeiro ou segundo congresso do grupo na Casa das Crianças, em
Olinda, em 1981. Nesta época, os poetas do Movimento aos quais me
liguei mais foram (desculpem as omissões): Francisco Espinhara,
Eduardo Martins, Cida Pedrosa, Fátima Ferreira, Jorge Lopes,
Samuca Santos e Hector Pellizze (que nasceu na Argentina e
tornou-se grande amigo meu). Nessa época, aqueles jovens poetas
eram tão ou mais pobres do que nós, da Geração dita 65. Um ou
outro, como nós, era de família remediada, como é costume chamar
uma classe média fronteiriça com o proletariado. Falar nisso,
tanto a maioria dos independentes quanto os da Geração 65 poderiam
auto-aplicar-se o epíteto de “poetariado”, como propôs no Sudeste
o poeta marginal Ulisses Tavares, ou, mais precisamente, de “poetílicos”,
como queria Ronaldo Werneck, do mesmo movimento e região.
Bem, mas essas são considerações secundárias, ou seja,
sociológicas, enquanto arte é essencialmente forma. Eu disse
essencialmente e não “unicamente” como queriam (e parece que se
arrependeram, ao proporem depois um “salto conteudístico,
semântico, participante”) os concretistas. Tanto a geração de
“poesia marginal” ou geração “desbunde” da década de 70 (eixo
Rio-São Paulo) como o Movimento Nacional de Escritores
Independentes, que surgiu para arrumar a confusão, não possuem
plataforma estética explícita, o que lhes tira o caráter histórico
de Movimentos. Este último, em seu I Encontro Nacional, em
setembro de 1981, aprovou cinco itens, todos éticos, nenhum
estético. Mas, se não há manifesto, os poemas falam formalmente
por si mesmos.
Eu não sei até que ponto o ícone da poesia alternativa, no Brasil,
Paulo Leminski, influenciou o “movimento” nacional da poesia
marginal/ independente, mas desconfio de que estimulou muito o
poema curto de versos curtos e oswaldianos, com teor de
quotidianidade que começou a se espalhar no Brasil, atingindo de
cheio o Nordeste. Pode ser que o poema minuto/ piada/ sarcasmo/
erótico/ crítico seja a marca mais característica da porrada de
poetas que li, de Pernambuco ou de fora. Embora outros esquemas
formais/ conteudísticos sejam, também, abundantemente encontrados
nessa poética que não foi epígona de 45, como a minha, mas é
apontada, pelos analistas que li, como “espontaneamente ou
inconscientemente” ramificada em 22. Eu sempre concordei que o
poeta moderno, que é difícil por natureza, reduzisse o tamanho dos
poemas, como um mínimo de concessão a um público não acadêmico que
tem ojeriza à prolixidade que o afasta do consumismo. Eu gosto
muito dessa face-relâmpago da poesia. O próprio Goethe tem poemas
líricos minúsculos e arrebatadores.
Ao grupo inicial de 80 uniram-se os novíssimos como Lara que tem,
ao lado do destino de poeta, o compromisso de continuar a fazer as
suas análises sobre o Movimento, e assumir o seu papel de
poeta-ensaísta. Regojizo-me por ter a honra de conhecer poetas
como Erickson Luna, Lara, Miró, Malungo e Marinho.
Erickson Luna e Francisco Espinhara já migraram da nossa
convivência, neste ano de 2007, mas não a poesia deles, que vem
merecendo acentuado destaque no mais que virtual mundo da web. No
site Interpoética, iniciativa de Cida Pedrosa e Sennor Ramos, há
uma seleção bastante representativa de poemas que pode servir como
ponto de partida para análise da obra deles. Ao contrário da minha
geração, os poetas contam hoje com essa ferramenta de editoria
literária.
Mais recentemente, conheci Clóvis Campêlo, que vem liderando o
grupo virtual Poetas Independentes. Convidado para fazer parte do
grupo, não me furtei em participar, embora não cultue o prazer
epistolar, muito menos nestes novos tempos da velocidade
cibernética. Mas vejo que eles se renderam aos tempos do alemão
Johann Gutemberg e resolveram editar uma antologia em páginas de
papel. Nada mais alentador para este velho poeta. Que o digam os
da minha convivência que sabem da velha Remington, onde
datilografo meus poemas.
Se pensarmos bem, os meios não se excluem, antes se complementam.
O importante é o que se veicula através deles. Bom seria que tudo
que se publicasse fosse a poesia, reafirmando seu inquestionável
perfil de instituição social, uma prática humana permanente,
visando a satisfazer alguma necessidade coletiva. Considero a
poesia que, como arte, preenche a necessidade de beleza do ser
humano, onipresente há milênios no mundo, tanto em povos arcaicos,
antigos ou modernos, como uma instituição social básica, assim
como o são: a família, a religião, a agricultura etc.
Essa observação, meus milhões de leitores, é inédita nestas
páginas, mas já se encontra no Interpoética há algum tempo, o que
me faz lembrar da agilidade editorial da web, nem sempre benéfica.
Mas devo confessar que, assim como o Grupo Virtual Poetas
Independentes rendeu-se às páginas de papel, eu fui rendido pelas
páginas de vidro.

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