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Por ALBERTO DA CUNHA MELO 

 

© Revista Continente Multicultural, edição n. 80, agosto de 2007 . Coluna MARCO ZERO, Ilustração de Bueno.

 


           Desde o primeiro ano da década de 80 tive a honra de conviver estreitamente com o Movimento dos Escritores Independentes de Pernambuco, participando, inclusive, não sei se do primeiro ou segundo congresso do grupo na Casa das Crianças, em Olinda, em 1981. Nesta época, os poetas do Movimento aos quais me liguei mais foram (desculpem as omissões): Francisco Espinhara, Eduardo Martins, Cida Pedrosa, Fátima Ferreira, Jorge Lopes, Samuca Santos e Hector Pellizze (que nasceu na Argentina e tornou-se grande amigo meu). Nessa época, aqueles jovens poetas eram tão ou mais pobres do que nós, da Geração dita 65. Um ou outro, como nós, era de família remediada, como é costume chamar uma classe média fronteiriça com o proletariado. Falar nisso, tanto a maioria dos independentes quanto os da Geração 65 poderiam auto-aplicar-se o epíteto de “poetariado”, como propôs no Sudeste o poeta marginal Ulisses Tavares, ou, mais precisamente, de “poetílicos”, como queria Ronaldo Werneck, do mesmo movimento e região.

Bem, mas essas são considerações secundárias, ou seja, sociológicas, enquanto arte é essencialmente forma. Eu disse essencialmente e não “unicamente” como queriam (e parece que se arrependeram, ao proporem depois um “salto conteudístico, semântico, participante”) os concretistas. Tanto a geração de “poesia marginal” ou geração “desbunde” da década de 70 (eixo Rio-São Paulo) como o Movimento Nacional de Escritores Independentes, que surgiu para arrumar a confusão, não possuem plataforma estética explícita, o que lhes tira o caráter histórico de Movimentos. Este último, em seu I Encontro Nacional, em setembro de 1981, aprovou cinco itens, todos éticos, nenhum estético. Mas, se não há manifesto, os poemas falam formalmente por si mesmos.

Eu não sei até que ponto o ícone da poesia alternativa, no Brasil, Paulo Leminski, influenciou o “movimento” nacional da poesia marginal/ independente, mas desconfio de que estimulou muito o poema curto de versos curtos e oswaldianos, com teor de quotidianidade que começou a se espalhar no Brasil, atingindo de cheio o Nordeste. Pode ser que o poema minuto/ piada/ sarcasmo/ erótico/ crítico seja a marca mais característica da porrada de poetas que li, de Pernambuco ou de fora. Embora outros esquemas formais/ conteudísticos sejam, também, abundantemente encontrados nessa poética que não foi epígona de 45, como a minha, mas é apontada, pelos analistas que li, como “espontaneamente ou inconscientemente” ramificada em 22. Eu sempre concordei que o poeta moderno, que é difícil por natureza, reduzisse o tamanho dos poemas, como um mínimo de concessão a um público não acadêmico que tem ojeriza à prolixidade que o afasta do consumismo. Eu gosto muito dessa face-relâmpago da poesia. O próprio Goethe tem poemas líricos minúsculos e arrebatadores.

Ao grupo inicial de 80 uniram-se os novíssimos como Lara que tem, ao lado do destino de poeta, o compromisso de continuar a fazer as suas análises sobre o Movimento, e assumir o seu papel de poeta-ensaísta. Regojizo-me por ter a honra de conhecer poetas como Erickson Luna, Lara, Miró, Malungo e Marinho.

Erickson Luna e Francisco Espinhara já migraram da nossa convivência, neste ano de 2007, mas não a poesia deles, que vem merecendo acentuado destaque no mais que virtual mundo da web. No site Interpoética, iniciativa de Cida Pedrosa e Sennor Ramos, há uma seleção bastante representativa de poemas que pode servir como ponto de partida para análise da obra deles. Ao contrário da minha geração, os poetas contam hoje com essa ferramenta de editoria literária.

Mais recentemente, conheci Clóvis Campêlo, que vem liderando o grupo virtual Poetas Independentes. Convidado para fazer parte do grupo, não me furtei em participar, embora não cultue o prazer epistolar, muito menos nestes novos tempos da velocidade cibernética. Mas vejo que eles se renderam aos tempos do alemão Johann Gutemberg e resolveram editar uma antologia em páginas de papel. Nada mais alentador para este velho poeta. Que o digam os da minha convivência que sabem da velha Remington, onde datilografo meus poemas.

Se pensarmos bem, os meios não se excluem, antes se complementam. O importante é o que se veicula através deles. Bom seria que tudo que se publicasse fosse a poesia, reafirmando seu inquestionável perfil de instituição social, uma prática humana permanente, visando a satisfazer alguma necessidade coletiva. Considero a poesia que, como arte, preenche a necessidade de beleza do ser humano, onipresente há milênios no mundo, tanto em povos arcaicos, antigos ou modernos, como uma instituição social básica, assim como o são: a família, a religião, a agricultura etc.

Essa observação, meus milhões de leitores, é inédita nestas páginas, mas já se encontra no Interpoética há algum tempo, o que me faz lembrar da agilidade editorial da web, nem sempre benéfica. Mas devo confessar que, assim como o Grupo Virtual Poetas Independentes rendeu-se às páginas de papel, eu fui rendido pelas páginas de vidro. 

 

 

 

Leia tudo sobre o mais recente lançamento do autor:

 

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas) DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio) HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)Tradição dos extremos (editoria da revista Continente Multicultural. Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006"A poesia não é uma mercadoria". IVANA MOURA entrevista Alberto da Cunha Melo. Diario de Pernambuco, Recife, domingo, 07 de maio de 2006, Caderno Viver, p. 08. Alberto da Cunha Melo. 40 anos de poesia, por ASTIER BASÍLIO. Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba. João Pessoa, domingo, 07 de maio de 2006. Identidade e variantes de Alberto da Cunha Melo, por IZACYL GUIMARÃES FERREIRA (Portal da UBE-SP - Estudos e Resenhas) O cão de olhos amarelos, por WALTER CABRAL DE MOURA. Jornal do Commercio, Opinião, 06 de junho de 2006. A metáfora do vazio na poesia de Alberto da Cunha Melo , por LILIANE MARIA JAMIR E SILVA. Ensaio acadêmico inédito.  O cão de olhos amarelos, por ÁLVARO ALVES DE FARIA. Rascunho, 23 de junho de 2006. A técnica da escrita simples, por Henriques Rodrigues. Jornal do Brasil, Jornal do Brasil, 19.08.2006  Diálogo cortante com Kafka nos poços profundos da angústia, por IVAN JUNQUEIRA. O Estado de S. Paulo, 26 (domingo) de novembro de 2006. Caderno 2.

 

Homenagens: Alberto da Cunha Melo, por FRANCISCO SOARES. Colagem feita com versos de Alberto Ao mestre com total respeito, por ANTÔNIO MARINHO. Paráfrase do poema "Aos mestres com desrespeito", de Alberto da Cunha Melo "Heróis Brasileiros" , (Coluna Direto ao Assunto, do Jornal da Paraíba) JOSÉ NÊUMANNE PINTO O poeta imortal que não vemos, por URARIANO MOTA Alberto da Cunha Melo: Um ressuscitador da Poética, por André Maranhão Santos Alberto da Cunha Melo, por IVAN MARINHO. (Poema)

 

 

 
 

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