Por
ALBERTO DA CUNHA MELO 

“Em Roma tudo está à venda" Salústio (86? 35 a.C.) 

 

© rev. Continente Multicultural, outubro, 2006.

 

Sempre gostei do padre Antonio Vieira. Era um guerrilheiro da fé, no sentido medieval, e defensor dos índios, dos judeus e dos negros. Conheceu a cadeia e combateu, em Roma, a Inquisição, este pecado capital da Igreja Católica. Foi perseguido pelos fazendeiros do Maranhão. Em coragem e bravura intelectual ombreava-se com o padre José Agostinho de Macedo, que fez a única tradução das Odes de Horácio que consegui ler. Agostinho fez um milhão de inimigos e vivia a desancar Camões, ninguém sabe por quê. Portugal foi o berço de alguns padres brabos e literariamente brilhantes.

Quanto a Vieira, veio para o Brasil aos seis anos de idade. Seu barroco europeu está misturado com a sintaxe e a semântica do Brasil seiscentista. O que deve ter trazido do berço foi a bravura e a inquietude que marcaram sua longa vida. Apontou sua pena contra Nassau, o invasor, contra tudo que era opressão.

Tenho em mãos, da coleção de livros raros da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, excelente antologia dos Sermões de Vieira, belamente encadernada e que, além do “Sermão de Santo Antonio”, traz outra peça famosa: o “Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda”. Do ponto de vista estético, sempre gostei mais do primeiro.

O “Sermão de Santo Antonio” é dedicado “À miserável província do Brasil”. Ele o inicia com a frase de Cristo “sois o sal da terra”, dita no “Sermão das Oito Aventuranças” (Mateus, 5). Vieira entende, e nisto está com a razão, que o Salvador não estaria dando um recado à população em geral que o ouvia, mas aos pregadores, aos que levaram a sua mensagem ao povo. Sou obrigado a transcrever uns trechos para justificar a metáfora do sal como a fé dos pregadores:

“O efeito do sal é impedir a corrupção. Mas como a terra (Brasil) se vê tão corrupta como está a nossa (...), qual será, ou qual pode ser a causa dessa corrupção?” Vieira, como todo retórico expressivo, faz um jogo paralelístico, cujo núcleo, respondendo a pergunta, é este:

“Ou é porque o sal não salga ou porque a terra se não deixa ‘salgar’, ou é porque o sal não salga e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra, ou porque a terra não a (se) deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, não querem receber, (...)”

E assim segue ele colocando em seu jogo o sal, os pregadores e os ouvintes, e forçando a capacidade lógica do ouvinte de ontem e do leitor de hoje. Se traduzirmos a metáfora sal por fé, corrupção por pecado e pregadores por políticos, e retraduzirmos fé por ética e mantivermos corrupção, agora no sentido de fraude, de avanço às receitas públicas, cairemos no Brasil deste ano de 2005, do 3º milênio, bem distante do século 17, do 2º milênio.

Se Antonio Vieira, um padre, um grande missionário, de uma religiosidade bem próxima à medieval, andava mais preocupado com o pecado, a heresia e os costumes de sua época, hoje andamos encurralados por políticos criminosos, que roubam o dinheiro público, oriundo dos impostos que pagamos. Nossa luta é dentro de um Brasil secular, dominado pelo capital financeiro, às vezes pelas armas e sempre pelos políticos corruptos. Muito longe daquele Brasil inocente, “província miserável” do século 18. O sal é a ética que não vinga no mundo político, o sal que não salga, impedindo a corrupção/podridão. Seus pregadores seriam, no caso, os políticos, que “dizem uma coisa e fazem outra”. Uma alteração semântica nas metáforas de Vieira, e ele se deslocará no tempo, mas não no espaço.

Há, embora poucos, pregadores ou políticos honestos, que embora preguem uma “verdadeira doutrina que lhes dão (aos ouvintes), não querem receber”. O nosso padre, certamente, esteve muitas vezes em tal situação e, talvez, por isso admirava tanto o seu conterrâneo de além-mar, Santo Antonio. Este santo começou a mortificar-se ao sentir que “as praças” não mais queriam ouvi-lo. Resolveu, imaginem meus milhões de leitores, ir fazer sua pregação diante do oceano. À medida que pregava, iam surgindo nas águas milhares de peixes, de todos os tamanhos, com as cabeças emersas, para ouvi-lo. A partir da descrição desse episódio, Vieira dá continuidade a seus sermões fazendo comparação entre os peixes e os homens, daí porque este sermão é também chamado “Sermão dos Peixes”.

Por uma série de razões, gosto do barroquismo de Vieira. Por não ser ornamental, como o de boa parte dos poetas barrocos, mas repleto de metáforas visuais conteudisticamente precisas, das dicotomias e demais recursos barrocos que em sua prosa funcionam lógica e esteticamente. O barroco de Vieira deu vazão a sua tumultuada vida, não só no campo religioso, mas nos maiores episódios políticos e sociais de sua época. Linguagem ou vida a seu modo tumultuadas. Segundo Afrânio Peixoto, a prosa nunca tivera “desde Aristóteles e Quintiliano, mestre mais eloqüente”.

É considerado até hoje um dos maiores mestres da língua, mas falava 7 idiomas indígenas e, diferentemente de uma grande parte das ordens religiosas, que eram escravocatas, defendeu os índios, os judeus e os negros, como já nos referimos anteriormente. Aos 89 anos, 50 no Brasil, morreu o grande jesuíta. Seu sucessor, no Brasil, foi com todas as honras, Frei Caneca, fuzilado com 46 anos. Vivesse mais, ombrearia com Vieira, ou não?


@ Ilustração de Bueno

   
 

 

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