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Sempre
gostei do padre Antonio Vieira. Era um guerrilheiro da fé, no
sentido medieval, e defensor dos índios, dos judeus e dos negros.
Conheceu a cadeia e combateu, em Roma, a Inquisição, este pecado
capital da Igreja Católica. Foi perseguido pelos fazendeiros do
Maranhão. Em coragem e bravura intelectual ombreava-se com o
padre José Agostinho de Macedo, que fez a única tradução das
Odes de Horácio que consegui ler. Agostinho fez um milhão de
inimigos e vivia a desancar Camões, ninguém sabe por quê.
Portugal foi o berço de alguns padres brabos e literariamente
brilhantes.
Quanto a Vieira, veio para o Brasil aos seis anos de idade. Seu
barroco europeu está misturado com a sintaxe e a semântica do
Brasil seiscentista. O que deve ter trazido do berço foi a
bravura e a inquietude que marcaram sua longa vida. Apontou sua
pena contra Nassau, o invasor, contra tudo que era opressão.
Tenho em mãos, da coleção de livros raros da Biblioteca Pública
do Estado de Pernambuco, excelente antologia dos Sermões de
Vieira, belamente encadernada e que, além do “Sermão de Santo
Antonio”, traz outra peça famosa: o “Sermão pelo Bom Sucesso
das Armas de Portugal contra as de Holanda”. Do ponto de vista
estético, sempre gostei mais do primeiro.
O “Sermão de Santo Antonio” é dedicado “À miserável província
do Brasil”. Ele o inicia com a frase de Cristo “sois o sal da
terra”, dita no “Sermão das Oito Aventuranças” (Mateus,
5). Vieira entende, e nisto está com a razão, que o Salvador não
estaria dando um recado à população em geral que o ouvia, mas
aos pregadores, aos que levaram a sua mensagem ao povo. Sou
obrigado a transcrever uns trechos para justificar a metáfora do
sal como a fé dos pregadores:
“O efeito do sal é impedir a corrupção. Mas como a terra
(Brasil) se vê tão corrupta como está a nossa (...), qual será,
ou qual pode ser a causa dessa corrupção?” Vieira, como todo
retórico expressivo, faz um jogo paralelístico, cujo núcleo,
respondendo a pergunta, é este:
“Ou é porque o sal não salga ou porque a terra se não deixa
‘salgar’, ou é porque o sal não salga e os pregadores dizem
uma coisa e fazem outra, ou porque a terra não a (se) deixa
salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão,
não querem receber, (...)”
E assim segue ele colocando em seu jogo o sal, os pregadores e os
ouvintes, e forçando a capacidade lógica do ouvinte de ontem e
do leitor de hoje. Se traduzirmos a metáfora sal por fé, corrupção
por pecado e pregadores por políticos, e retraduzirmos fé por ética
e mantivermos corrupção, agora no sentido de fraude, de avanço
às receitas públicas, cairemos no Brasil deste ano de 2005, do 3º
milênio, bem distante do século 17, do 2º milênio.
Se Antonio Vieira, um padre, um grande missionário, de uma
religiosidade bem próxima à medieval, andava mais preocupado com
o pecado, a heresia e os costumes de sua época, hoje andamos
encurralados por políticos criminosos, que roubam o dinheiro público,
oriundo dos impostos que pagamos. Nossa luta é dentro de um
Brasil secular, dominado pelo capital financeiro, às vezes pelas
armas e sempre pelos políticos corruptos. Muito longe daquele
Brasil inocente, “província miserável” do século 18. O sal
é a ética que não vinga no mundo político, o sal que não
salga, impedindo a corrupção/podridão. Seus pregadores seriam,
no caso, os políticos, que “dizem uma coisa e fazem outra”.
Uma alteração semântica nas metáforas de Vieira, e ele se
deslocará no tempo, mas não no espaço.
Há, embora poucos, pregadores ou políticos honestos, que embora
preguem uma “verdadeira doutrina que lhes dão (aos ouvintes), não
querem receber”. O nosso padre, certamente, esteve muitas vezes
em tal situação e, talvez, por isso admirava tanto o seu conterrâneo
de além-mar, Santo Antonio. Este santo começou a mortificar-se
ao sentir que “as praças” não mais queriam ouvi-lo.
Resolveu, imaginem meus milhões de leitores, ir fazer sua pregação
diante do oceano. À medida que pregava, iam surgindo nas águas
milhares de peixes, de todos os tamanhos, com as cabeças emersas,
para ouvi-lo. A partir da descrição desse episódio, Vieira dá
continuidade a seus sermões fazendo comparação entre os peixes
e os homens, daí porque este sermão é também chamado “Sermão
dos Peixes”.
Por uma série de razões, gosto do barroquismo de Vieira. Por não
ser ornamental, como o de boa parte dos poetas barrocos, mas
repleto de metáforas visuais conteudisticamente precisas, das
dicotomias e demais recursos barrocos que em sua prosa funcionam lógica
e esteticamente. O barroco de Vieira deu vazão a sua tumultuada
vida, não só no campo religioso, mas nos maiores episódios políticos
e sociais de sua época. Linguagem ou vida a seu modo tumultuadas.
Segundo Afrânio Peixoto, a prosa nunca tivera “desde Aristóteles
e Quintiliano, mestre mais eloqüente”.
É considerado até hoje um dos maiores mestres da língua, mas
falava 7 idiomas indígenas e, diferentemente de uma grande parte
das ordens religiosas, que eram escravocatas, defendeu os índios,
os judeus e os negros, como já nos referimos anteriormente. Aos
89 anos, 50 no Brasil, morreu o grande jesuíta. Seu sucessor, no
Brasil, foi com todas as honras, Frei Caneca, fuzilado com 46
anos. Vivesse mais, ombrearia com Vieira, ou não?
@ Ilustração de Bueno
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