Por
ALBERTO DA CUNHA MELO 

“O gênio é uma revelação de Deus.”  Calderón de la Barca (1600 – 1681)

 

© rev. Continente Multicultural, n. 71, novembro de 2006.

 


Li, na Gazeta Mercantil de 29 de setembro deste ano, uma notinha sobre as últimas classificações do Guinness e estava lá a cantora pop Madonna no cume do show-business, em 2004, quando ganhou cerca de €40 milhões, no câmbio atual, algo em torno de R$110.400.000,00, naquele ano, sendo considerada a “cantora mais bem paga do mundo”. No campo da literatura, mais precisamente da literatura temporária, ou best-seller, quem mereceu o Guinness foi a romancista J.K. Rowling, ganhando em direitos autorais mais do que Madona (quem diria?), nada menos que €51,3, isto mesmo, 51,3 milhões de euros. 

Não julgo Madona como cantora, pois não sou crítico musical, nem faço críticas à série Harry Potter, pois só falo sobre a ficção que leio, e, nesta idade, só leio Kafka, literatura que desafia a eternidade. Se aplicarmos a fórmula de Goethe de que só vale a pena escrever para um milhão de leitores, Rowling tem todos os motivos de digitar seus romances, sejam eles de alta ou baixa literatura. Quanto à Madona, agradam-me seu corpo e sua voz, cacofonicamente por razões que a própria razão desconhece (perdoem-me meus milhões de leitores, por esse lugar-comum pasqualino). 

Neste planetinha com seis bilhões de habitantes e mídia simultânea, as esferas do show -business e do esporte geraram verdadeiras deuses e musas, com bilhões de fiéis, mais aclamados que os deuses do Olimpo, na primeira pátria da inteligência, a antiga Grécia. As entidades sagradas de nossos dias invadem corações mentes de milhões de jovens, têm uma vida cheia de glórias, mas depois estão muito longe de alcançar os 2.800 anos dos deuses aos quais a poesia de Homero deu rosto e grandeza. 

Voltando à Rowling e seus milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, em diversas línguas, é possível acreditar que ainda será lembrado nos próximos 50 anos. Mas é impossível prever até quando será lido e celebrado Shakespeare. Já se disse que o autor de Hamlet foi, sozinho, a empresa que mais empregou gente no mundo, nos últimos quatro séculos. Homero, Virgílio, Milton, Torquato Tasso, Camões, cada um deles, quantos milhões de exemplares de suas obras foram ou estão sendo publicadas em nosso planeta? 

Poetas do tempo de Jesus Cristo, como o magnífico Horácio, que renovou a estética greco-romana, influiu poderosamente no chamado classicismo europeu, hoje têm suas odes expostas nas livrarias de todos os países do Ocidente e em alguns do Oriente. No entanto, seu público é restrito. Um dos seus princípios estéticos, docere cum delectare, foi vulgarizado entre nós como a expressão “juntar o útil ao agradável”. Na verdade, Horácio defendia a função didática da poesia. Um poema politicamente engajado estaria dentro dessa classificação. 

João Cabral de Melo Neto, que renovou a poética em língua portuguesa, é provável que estenda sua influência sobre as poéticas de outros países, porque tempo a sua poesia terá pela frente. Sua visão da poesia certamente se imporá pela sua originalidade, sem fazer o uso, como é comum, de imprecisão da metáfora: “exploração da materialidade das palavras e das possibilidades de organização de estruturas verbais”. Enquanto os discos de Madonna e os livros de J.K. Rowling vão saindo aos milhões e suas autoras ou deusas temporárias gozam uma gigantesca fortuna, a obra de João Cabral já transpôs a ilusão do tempo e toma a trilha da eternidade. 

Quando falo de best-seller no âmbito da poesia, sempre me lembro da glória passageira do poeta J. G. de Araújo, cujos livros foram, para alguns jovens poetas, na segunda metade dos anos 50 e primeira metade dos 60, uma espécie de ponte para a poesia moderna, por fazer uso do verso livre coloquial e de fácil dicção. Nunca mais li nem ouvi mais nada sobre aquele poeta, o primeiro e único best-seller da poesia brasileira. 

A convivência com o mundo da literatura me convenceu de que nenhum dos poetas ditos eruditos conseguiu viver decentemente com os direitos autorais advindos de sua obra poética, no país, até agora. O primeiro livro de Cabral, Pedra do Sono, teve apenas 250 exemplares, pagos por seu pai. E dali para diante, a saída maior de seus livros deveu-se à indicação de seu nome nos cursos de pré-vestibular, nas cadeiras de Letras, nas universidades. O mesmo não se poder dizer da nata dos violeiros-repentistas do Nordeste. Há repentistas que compraram fazendas, casa e apartamentos na capital. De acordo com o seu prestígio, cobram um cachê alto em suas apresentações e têm ao seu dispor dezenas de festivais com prêmios razoáveis. Mas, claro, que estão a anos-luz dos €51 milhões de Rowling. 

@ Ilustração de Bueno

 

 

Leia tudo sobre o mais recente lançamento do autor:

 

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas) DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio) HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)Tradição dos extremos (editoria da revista Continente Multicultural. Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006"A poesia não é uma mercadoria". IVANA MOURA entrevista Alberto da Cunha Melo. Diario de Pernambuco, Recife, domingo, 07 de maio de 2006, Caderno Viver, p. 08. Alberto da Cunha Melo. 40 anos de poesia, por ASTIER BASÍLIO. Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba. João Pessoa, domingo, 07 de maio de 2006. Identidade e variantes de Alberto da Cunha Melo, por IZACYL GUIMARÃES FERREIRA (Portal da UBE-SP - Estudos e Resenhas) O cão de olhos amarelos, por WALTER CABRAL DE MOURA. Jornal do Commercio, Opinião, 06 de junho de 2006. A metáfora do vazio na poesia de Alberto da Cunha Melo , por LILIANE MARIA JAMIR E SILVA. Ensaio acadêmico inédito.  O cão de olhos amarelos, por ÁLVARO ALVES DE FARIA. Rascunho, 23 de junho de 2006. A técnica da escrita simples, por Henriques Rodrigues. Jornal do Brasil, Jornal do Brasil, 19.08.2006 

 

Homenagens: Alberto da Cunha Melo, por FRANCISCO SOARES. Colagem feita com versos de Alberto Ao mestre com total respeito, por ANTÔNIO MARINHO. Paráfrase do poema "Aos mestres com desrespeito", de Alberto da Cunha Melo "Heróis Brasileiros" , (Coluna Direto ao Assunto, do Jornal da Paraíba) JOSÉ NÊUMANNE PINTO

   
 
 

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