Por
ALBERTO DA CUNHA MELO 

"Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido com um cavalo" Mário Quintana 

 

© rev. Continente Multicultural, n. 69, setembro de 2006.

 


Na passada e angustiante década de 60, eu trabalhava na extinta loja de departamentos, Mesbla. No intervalo das duas horas para o almoço, eu lanchava um sanduíche de queijo com "vitamina" de banana e corria para a Biblioteca Pública Estadual. Entrava no setor de periódicos, com seus grandes cinzeiros redondos, de miolo de madeira de lei, acendia meu Continental e abria o Correio do Povo, de Porto Alegre, para ler especialmente a página de Mário Quintana, Caderno H. Durante os dois ou três anos em que trabalhava na Mesbla, havia esse meu encontro estreito com Quitana, o poeta que amava os grilos e as ruas silenciosas. A admiração pelo homem e pela obra começou naquele tempo. 

A poesia que ele nos oferece faz lembrar-me do que diz Huberto Hodhen, em seu livro Filosofia da Arte, em que considera o processo artístico o ato de transformar o pesado no leve. A leveza da linguagem quintaniana faz com que a poesia guarde uma estreita consangüinidade com a família espiritual em que estão Juan Ramón Jiménez (Espanha), Rabidranath Tagore (Índia) e Adelmar Tavares, entre nós. Mantendo a métrica silábica, nos sistemas isossilábico e heterorítmico, isto é, poemas mantendo a mesma métrica, mas não os mesmos ictos, nos seus primeiros livros, ele resolve alterná-la com textos de prosa lírica, verso livre e poemas com um ou dois versos (monossílabos e dissílabos). Mas sinto até remorso em falar em elementos estruturais, ao comentar uma poesia que é tão asa de passarinho, tão fímbria de nuvem. 

As comparações que, por acaso, fizer da poesia de Mário Quintana com a de outros poetas tem apenas o objetivo de situar a sua linguagem como uma pista para leitores que, ainda, depois de publicar muitos belos livros, estão no pecado venial de desconhecê-lo. Quintana é originalíssimo em sua poesia, e as possíveis semelhanças com outros são pontuais, pois os achados culturais, às vezes, coincidem perifericamente. Certa vez, o poeta Manuel Bandeira, que sabia das coisas, chamou Murilo Mendes de "o bicho de seda da poesia brasileira", isto é, tirava tudo de si. Se na época em que disse isso, tivesse lido, atentamente, a obra de Mário Quintana, seu amigo, teria identificado o segundo bicho de seda. 

Leiam este poema de Canções, no seu primeiro quarteto: "Em cima de meu telhado,/ Pirulin lulin lulin,/ Uma anjo, todo molhado,/ Soluça no seu flautim." Isso tem fragrâncias de Henriqueta Lisboa ou algo de pó de mármore de Cecília Meireles. Lembra-me, também, um quadro de Lasar Segal. Ah, lembra-me momentos delicados de Vinicius de Moraes e Murilo Mendes. Ah! Lembra-me Poesia, esse monstro de pelúcia, esta ausência de espaço e ausência de tempo, como o Infinito e a Eternidade, no sermão do profeta Rohden. 
Isto não é uma exegese da poesia de Mário Quintana, mesmo porque eu só tenho dele uma antologia, mas o registro dos 100 anos de nascimento de um brasileiro dos pampas, que viveu de e para a literatura. No mais, era um celibatário que podia fazer suas farras, sem waterloos domésticos, morava solitário em pensões e hotéis, onde costumava escrever a partir da meia-noite, para não ser interrompido por visitas. Quando saía a caminhar por ruas e praças, a alma de Porto Alegre o acompanhava. Mesmo depois de interromper as farras, ainda visitava os bares, os últimos templos da poesia, para tomar café. 

Eu tenho um amigo que ficou impressionado com uma frase de Quintana, que foi republicada em sua antologia 80 Anos de Poesia. É bem estranha, e dá muito que pensar: "Os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas./ Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais". A arte seria algo imanente em todas as criaturas humanas, mas só poucos conseguem atualizá-la; entre esses poucos podem estar os desempregados, os perdidos. Dentro dessa perspectiva, concordo com o poeta. Mas se pretende que a miséria é determinante do surgimento dos verdadeiros poetas, é claro que não concordo. 

Ao prefaciar o livro Os Melhores Poemas de Mário Quintana, de 1983, o crítico Fausto Cunha denominou-o de "último lírico". Concordo com a alcunha, embora considere lírica toda poesia não épica, não narrativa e que não é necessariamente individualista, confessional e melopaica. Mas, Quintana, além de lírico foge a qualquer classificação, como a de parassimbolista ou surrealista lírico. Isso é da natureza dos poetas autênticos, como Cruz e Souza, por exemplo. Sua poesia, apesar de hermética, deixa brechas de racionalidade, resultando numa linguagem de expressão emotiva e consensual. É uma linguagem-bombom, que dissolve lentamente o seu mel: "Os grilos abrem frinchas no silêncio./ Os grilos trincam as vidraças negras da noite." 

Como os poetas velhos de seu tempo, iludiu-se com as glórias acadêmicas e candidatou-se três vezes, sem sucesso, para a Academia Brasileira de Letras. Essa academia e as outras deveriam mudar seus estatutos e eliminar deles as aberrações que lhes impôs um dos seus fundadores, o abolicionista Joaquim Nabuco, tornando-as órgãos cooptadores de políticos, militares, médicos e qualquer celebridadezinha das crônicas sociais, e fechan-do as portas para grandes escritores ou grandes poetas, como Mário Quintana. Continuariam a editar livros, mas, ao invés de serem máquinas de efemérides, deveriam transformar-se em entidades reivindicativas, em defesa do escritor, mas nunca partidárias. 

Perdoem-me, meus milhões de leitores, em deter-me tanto nas academias, mas o escândalo que foi a não-aceitação de Quintana e de outros escritores verdadeiros deve sempre ser lembrado, tristemente registrado nos anais da literatura brasileira. O mavioso grilo dos pampas cantou muito, publicou uns 50 livros de gênero variado, predominando a poesia. Foi um grande tradutor de autores como Proust e Virginia Woolf. Há poetas que devem ser lidos pela manhã, outros à tarde e outros à noite. Quintana se devia ler o dia inteiro. Deixou uma poesia leve, atlética, solar, que são formas de ser profundo em poesia. 

@ Ilustração de Bueno

 

 

Leia tudo sobre o mais recente lançamento do autor:

 

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas) DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio) HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)Tradição dos extremos (editoria da revista Continente Multicultural. Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006"A poesia não é uma mercadoria". IVANA MOURA entrevista Alberto da Cunha Melo. Diario de Pernambuco, Recife, domingo, 07 de maio de 2006, Caderno Viver, p. 08. Alberto da Cunha Melo. 40 anos de poesia, por ASTIER BASÍLIO. Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba. João Pessoa, domingo, 07 de maio de 2006. Identidade e variantes de Alberto da Cunha Melo, por IZACYL GUIMARÃES FERREIRA (Portal da UBE-SP - Estudos e Resenhas) O cão de olhos amarelos, por WALTER CABRAL DE MOURA. Jornal do Commercio, Opinião, 06 de junho de 2006. A metáfora do vazio na poesia de Alberto da Cunha Melo , por LILIANE MARIA JAMIR E SILVA. Ensaio acadêmico inédito.  O cão de olhos amarelos, por ÁLVARO ALVES DE FARIA. Rascunho, 23 de junho de 2006. A técnica da escrita simples, por Henriques Rodrigues. Jornal do Brasil, Jornal do Brasil, 19.08.2006 

 

Homenagens: Alberto da Cunha Melo, por FRANCISCO SOARES. Colagem feita com versos de Alberto Ao mestre com total respeito, por ANTÔNIO MARINHO. Paráfrase do poema "Aos mestres com desrespeito", de Alberto da Cunha Melo "Heróis Brasileiros" , (Coluna Direto ao Assunto, do Jornal da Paraíba) JOSÉ NÊUMANNE PINTO

   
 
 

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