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Criança, ele era um contumaz caçador de pássaros, lagartos e borboletas, na fazenda da família. Não os matava, mas criava-os nos seus viveiros. Ainda muito jovem, deixou seus amigos da mata, entrou num colégio e terminou em um seminário católico. Deixou o catolicismo do clero após mais de duas décadas de sacerdócio, encurralado pela inveja e a calúnia. Seu nome: Huberto Rohden, nascido num então esquecido povoado de Santa Catarina, em 1894, e falecido em 1981. Durante toda a sua vida foi um leitor e um escritor possessos. Tornou-se poliglota e fez seminários em toda parte do mundo, onde lançou muitas das suas mais de 60 obras.
Abandonou o clero mas não o verdadeiro Cristianismo. Seus estudos levaram-lhe a ser um dos maiores filósofos metafísicos e neoplatônicos do século passado. O respeito com que era recebido em qualquer Estado brasileiro e país do exterior deve ter assanhado uma grande inveja na parte podre do clero, que partiu para a mais funda das punhaladas, a calúnia. Acusaram-lhe de ter falsificado o imprimatur dos seus 25 livros até então publicados e, pior, devido às circunstâncias políticas, de ser aliado de Hitler. A campanha difamatória do clero, acumpliciada pela sua cúpula, no Brasil, caracterizou-se, mesmo, pela calúnia, este ataque criminoso que o grande romancista português, Camilo Castelo Branco, comparou com o carvão, que “quando não queima, suja”.
Os grandes espíritos, similares ao de Rohden, são indelevelmente marcados pelas alegrias próprias de uma vida mística e pelos sofrimentos e perseguições mesquinhas surgidos em sua própria tribo. Afastado de seus caluniadores, ele passou a fazer grandes amizades com expoentes da ciência e da mística, em vários países. Quando esteve ensinando na Universidade de Princeton, nos EUA, tornou-se amigo de Albert Einstein, e tempo depois escreveu o livro Einstein. O Enigma do Universo, insatisfeito com a leitura de vários ensaios sobre a Teoria da Relatividade. Ao morrer, deixou inédito o livro Filosofia Univérsica, doutrina elaborada durante toda a sua vida e que ganhou consistência nos seus encontros com Einstein.
Foi na década de 60 do século passado que travei o primeiro contato com a filosofia do mestre catarinense. Meu pai gostava de citar uma frase dele, meio trocadilhista, de que nunca me esqueci: “O mal que alguém me faz não é um mal porque não me faz mau, mas o mal que eu faço a alguém é um mal porque me faz mau”. Também gostava da crítica que Rohden fazia ao budismo radical, considerando que era impossível ser seguido à risca, exemplificando sobre o preceito de não matar nenhum ser vivo, com o fato higiênico necessário de se lavar as mãos com sabonete, o que ocasiona a morte de milhares de bactérias, que são inquestionavelmente seres vivos.
Como, na minha cidade camponioperária, não havia biblioteca pública, nem livraria, comprei na Estação Central do Recife, numa antiga banca de revistas, dois livros de Rohden. Já não me lembro dos títulos nem do conteúdo, apenas de sua clara, semiclássica, metafórica linguagem, a de um escritor de verdade. Ele ficou no meu subconsciente durante muitos anos, e os escritores do meu meio não o conheciam, creio que somente o grande poeta Ângelo Monteiro poderia conhecê-lo, mas nessa época não lhe falei sobre o filósofo. Só neste século descobri outra pessoa que o admirava, Olavo de Carvalho. Em rápida conversa que tive com ele, atribuiu a pouca repercussão de sua obra à sua editora, a Alvorada.
Entre os poucos livros de Rohden que possuo e que estão explícitos neste esboço biográfico, o que mais me interessou, por motivo pessoal óbvio, foi(é) Filosofia da Arte. Entre dezenas de definições que li sobre a Arte , a de nosso filósofo pareceu-me a mais precisa e mais estranha: “Arte é visão abstrata, manifestando-se em ação concreta”. Mas, para meu uso caseiro, tenho a pretensão de considerar os dois lados da moeda, acrescentando-lhe o lado oculto: “Arte é visão abstrata manifestando-se em ação concreta”, e visão concreta manifestando-se em ação abstrata. Explico-me. Ao passar pelo Parque 13 de Maio, aproximei-me de um grupo de fícus e fiquei impressionado com o relevo de seus troncos. Era a matéria viva retalhada e torcida demoniacamente. Mandei fazer uma foto de cada um dos troncos daquelas árvores ancestrais, pelo grande fotógrafo, Assis Lima, e, com elas, fiz as 21 partes de meu poema.
O problema é que não existe para Rohden ação abstrata. Prefiro não discutir, não posso questionar filosofia de gente grande. Dei, apenas, um exemplo, de como uma pequena definição do filósofo poderia gerar um congresso.Levando adiante a sua definição, ele defende que “a Arte consiste na faculdade de se visualizar em qualquer coisa individual um conteúdo universal, como também na capacidade de concretizar esse conteúdo universal abstrato em alguma coisa individual concreta”. Isso me faz lembrar de Blake: To see a world in a grain of sand. Já nesse complemento supõe-se a visão de uma coisa individual concreta, exprimindo o universal abstrato.
Não compreendi muito bem suas reflexões sobre a vida depois da morte, embora até me contente com sua definição da morte: “Morrer é voltar da zona existencial para a zona essencial”. Ou seja, se morrermos, desapareceremos no Todo de onde provimos. Ainda bem, eu não suportaria viver eternamente. Mas essa, tenho a certeza, não é uma definição de Rohden para ser analisada tão superficialmente como eu o fiz.
Os livros de Rohden me fazem parar em cada página, por uma provocação, uma beleza, uma reflexão. Gostaria de que todo mundo o lesse. Nas minhas horas de bom humor sinto vontade de dividir com ele meus milhões de leitores. Por falar em dividir, lembrei-me de um jogo vocabular seu, muito próximo à autodenominada poesia concreta. Numa referência que ele faz ao dualismo do monoteísmo clerical, que só reconhece a transcendência de Deus sobre as criaturas, ao invés da transcendência e da imanência divinas, como no monismo, o que levaria a um “Deus mutilado”, assim o escreve: (D)eu(s)
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Ilustração de Bueno
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