Por ALBERTO DA CUNHA MELO 

“Aprendi muito com meus mestres, mais com meus companheiros, mais ainda com meus alunos.” Do Talmude 

 

© rev. Continente Multicultural, n. 67, julho de 2006.

 


O Irã preparando-se contra a invasão dos Estados Unidos, o Iraque usando homens-bombas contra o mesmo invasor, o Brasil mergulhado numa guerra civil, uma guerra que o governo “não ousa dizer o nome”, e eu, aqui, falando de coisas da paz, como a cultura estética. 

Ainda sou do tempo das Belas Letras, a alcunha multissecular mais conhecida da Gramática, da Eloqüência e da Poesia. Eram tempos renascentistas, em que a narrativa de ficção em prosa (romance, novela, conto) ainda não tinha se firmado, apesar de Cervantes. Mas, algo se vem pintando em nosso horizonte de navalhas, que guarda algum sabor das corporações medievais dos artesãos, estratificadas em mestres e aprendizes. Assis Brasil tem um site que “discorre sobre o gênese das oficinas”, mas prefiro não o ver. Gosto de errar sozinho. Ou acertar, quem sabe, os caminhos malandros de Deus? 

Estou procurando entrar num tema atual, a proliferação das oficinas literárias no país. Não são cursos, conforme reportagem da jornalista Cristina Zarur, para o suplemento Verso & Prosa, de O Globo (01.04.06). As oficinas são grupos de candidatos, ou não, a escritor, sob o estímulo de um escritor veterano. Meio corporativista (e quem não é?), sou favorável a tudo que signifique difusão e valorização da literatura. Nunca participei de uma oficina por capricho pessoal. Mais de uma vez pronunciei-me impedido de participar de academias de letras (hoje faço parte de uma, a de Artes e Letras do Nordeste – uma amável conspiração de amigos) porque não são colegiados formais reivindicativos. 

Volto às oficinas literárias, repetindo: sou favorável a todas elas. Cristina Zarur diz que esse tipo de grupo foi criado nos Estados Unidos, nos campi acadêmicos e, depois, espalhou-se pelo mundo. No Brasil, o grupo apareceu na década de 60, também nos meios universitários. Graças a Deus, aquelas de que tomei conhecimento estão bem longe do conspirativo mundo acadêmico. Elas são um mundo diversificado, mas embora desenvolvam os valores da diversidade de estilos e da livre criação, um pouco da estética do animador (o escritor veterano) fica certamente pairando no ar. Nas minhas raras tentativas de tradução, notei, sempre, que a minha visão estética-formal, e não a do traduzido, sempre se impunha. Assim é a relação entre mestre e aprendizes das novas oficinas. É humano. 

Na curta e rica reportagem de Cristina, há um box que informa sobre a existência de uma oficina bem simpática, na Paraíba. Trata-se do Clube do Conto, que funciona na praça de alimentação de um shopping em João Pessoa. A reportagem fala de um grupo reunido com xícaras de café e bolo, melhor seria muita cerveja e salgadinho. O Clube começou pela internet, com o poeta paraibano (gostaria de conhecê-lo) Antonio Mariano de Lima criando uma espécie de “corrente”: um convidado ao debate atraindo outro, até que a necessidade do contato levou todo mundo para as reuniões do Clube do Conto. A escritora Maria Valéria diz que o Clube “não tem líder, nem mestre”, mas eu duvido da existência de qualquer grupo humano sem um líder, mesmo um grupo anárquico, informal, primário ou afetivo. Não seria o líder do Clube quem mais nega a sua existência? Mas, espontâneo e sem regras estatutárias, ele tem produzido muito, desde 2004. Basta citar que já editou duas antologias de contistas paraibanos. 

Ainda mais perto de mim está a oficina literária que o escritor Raimundo Carrero criou e hoje é uma entidade consolidada em Pernambuco. Nela, os aprendizes dispõem de um mestre que derruba todas as distâncias que a condição de veterano e premiado escritor poderia inspirar. Bom humor, informalismo, camaradagem, eis o clima que sua oficina transpira. Senti, na reportagem de O Globo, um enorme tom de simpatia pela atividade do escritor consagrado que se distribui com os aprendizes e com todo mundo. Recentemente, as oficinas ganharam espaço on line, e Carrero nos informou que está obtendo bons resultados. 

Outra experiência reportada com simpatia por Cristina Zarur é a Estação de Letras, no Sudeste, comandada pela incandescência de Suzana Vargas, a quem admiro. Entrevistada, ela disse uma grande verdade: “por trás de um grande escritor há um grande leitor”. Se eu não tivesse me danado a ler tudo que chegava às minhas mãos, principalmente romances, eu teria me livrado desse garrote na garganta que é escrever. O ensino das técnicas narrativas é um dos objetivos de sua oficina. Tanto as técnicas da narrativa quanto as técnicas do poema podem ser ensinadas. O que as oficinas de Carrero e Suzana não fazem é dirigismo literário, é tentarem ensinar a criar, isto depende do potencial de cada jovem ou adulto que pretenda ser um escritor, isto é, um artista da palavra. O segredo da criação está na vida do criador, como um misterioso pecado. 

Fiz parte do que hoje se chama Grupo de Jaboatão, de certa maneira um embrião da chamada Geração 65, de Pernambuco. Na cidade de Jaboatão, eu e mais uns quatro amigos que tentavam a poesia, reuníamo-nos irregularmente num bar, e entregávamos, para ler, uns aos outros, os últimos poemas. Chamávamos a esses encontros de “Hora da Verdade”. Depois de cada um ler silenciosamente os textos dos outros, elegia a melhor tentativa e, a seguir, pegava outro poema, e, na cara, ia dizendo: “isto não presta”. Isso era uma oficina, nos idos de 60? Uma proto-oficina? Não sei, mas ficou na lembrança. 

@ Ilustração de Bueno

 

 

Leia tudo sobre o mais recente lançamento do autor:

 

ALFREDO BOSI: O cão de olhos amarelos (orelhas) DEONÍSIO DA SILVA: Gosto de ler Alberto da Cunha Melo (prefácio) HILDEBERTO BARBOSA FILHO: Alberto da Cunha Melo, grande pecador ou seis propostas para uma nova leitura (pósfácio)Tradição dos extremos (editoria da revista Continente Multicultural. Recife: CEPE, ed. n. 64, abril de 2006"A poesia não é uma mercadoria". IVANA MOURA entrevista Alberto da Cunha Melo. Diario de Pernambuco, Recife, domingo, 07 de maio de 2006, Caderno Viver, p. 08. Alberto da Cunha Melo. 40 anos de poesia, por ASTIER BASÍLIO. Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba. João Pessoa, domingo, 07 de maio de 2006. Identidade e variantes de Alberto da Cunha Melo, por IZACYL GUIMARÃES FERREIRA (Portal da UBE-SP - Estudos e Resenhas) O cão de olhos amarelos, por WALTER CABRAL DE MOURA. Jornal do Commercio, Opinião, 06 de junho de 2006. A metáfora do vazio na poesia de Alberto da Cunha Melo , por LILIANE MARIA JAMIR E SILVA. Ensaio acadêmico inédito.  O cão de olhos amarelos, por ÁLVARO ALVES DE FARIA. Rascunho, 23 de junho de 2006. A técnica da escrita simples, por Henriques Rodrigues. Jornal do Brasil, Jornal do Brasil, 19.08.2006 

 

Homenagens: Alberto da Cunha Melo, por FRANCISCO SOARES. Colagem feita com versos de Alberto Ao mestre com total respeito, por ANTÔNIO MARINHO. Paráfrase do poema "Aos mestres com desrespeito", de Alberto da Cunha Melo "Heróis Brasileiros" , (Coluna Direto ao Assunto, do Jornal da Paraíba) JOSÉ NÊUMANNE PINTO

   
 
 

De acordo com a legislação em vigor, esta mensagem não pode ser considerada SPAM por possuir: identificação do remetente; descrição clara do conteúdo; e opção de remoção. Se você não deseja mais receber mensagens como estas, envie-nos novo e-mail, colocando em ASSUNTO, a palavra RETIRAR. Webdesigner: claudiac@plataforma.paraapoesia.nom.br