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De fim em fim, a gente termina acreditando que nada tem fim, seja no tempo e no espaço, seja na eternidade e no infinito. Comecei esta crônica com ares metafísicos, para expor minha idéia de que os Estados Unidos não querem apenas o fim do Iraque, do Irã e da Coréia do Norte. Eles já proclamaram o fim da História e, agora, anunciam o fim da Arte. Daqui a uns 10 anos, proclamarão o fim da alma.
Quando Francis Fukuyama, nascido em Chicago, lançou seu mais famoso livro,
O Fim da História e o Último Homem, provocou um reboliço na área das Ciências Humanas. Eu mesmo espiei já com saudade meus dois volumes de História, de Heródoto, na tumba-estante do apartamento. Essa primeira impressão se foi quando comecei a ler releases sobre a obra. Não era bem o que eu pensava quando li as notícias no jornal. O triunfo do liberalismo capitalista era o encerramento da luta histórica por uma sociedade estável, permanente, comunitarista. Na verdade, o cristianismo e o comunismo eram, como a de Fukuyama, uma profecia. E, como as duas outras, o liberalismo ou, como ele quer, o comunitarismo, também poderá fracassar. O fim da História nada mais é, portanto, que a interrupção da busca do mundo perfeito. Não seria melhor considerá-lo uma utopia pop?
O homem civilizado não é um caçador de tribo arcaica, que não espera mudanças a não ser no clima, no tamanho das famílias. O civilizado é um eterno insatisfeito, quer mudanças na política, na economia e nas artes. Se a civilização é a luta por uma nova tecnologia, por mais energia e mais bem-estar coletivo, a História nunca findará. Lembro até o que o escritor Abdias Moura chama de “ideologia do desenvolvimento”. Quando a nossa civilização se sentirá plenamente desenvolvida?
Agora, os EUA anunciam o fim da Arte. Agora, não, em 1984, através de um ensaio do filósofo e crítico Arthus C. Danto, nascido em 1924, em Michigan. No último dia 19 de março, a Folha de S. Paulo, no seu caderno Mais!, publicou entrevista concedida pelo autor, já com 82 anos, a Paulo Ghiraldelli Jr.
Antes que se pense que perderam toda a validade, as artes que foram realizadas ontem ou não realizadas, hoje, artes do tempo e artes do espaço, é preciso que se alerte que o que está finda para o autor é a sucessão histórica: estilos de épocas, vanguardas e todas as mudanças artísticas classificadas cronologicamente. O que Arthur Danto propõe é algo como um panteísmo estético: tudo é arte. Portanto, extingue todo rótulo ou definição que estabelece a diferença entre a Arte e não-Arte.
A coisa é complicada. Não li o ensaio dele (que ele afirma ser mais atual do que nunca) e só dependo de sua entrevista para esta crônica. Copio um fragmento de resposta do Danto, que fala do seu encontro, com grande impacto, com o trabalho de Warhol: “se a ‘Brillo Box’ de Warhol fosse arte, qualquer coisa poderia ser arte, e, portanto, não havia nenhum modo especial de ser da obra de arte”.
Pronto, os museus vão esborrar de sabão em pó, camisinhas e o que der na cabeça de alguém, que se julga artista, colocar, com o nome embaixo, numa exposição. Um livro de poesia pode ser a reunião de menus, listas para a lavanderia, tíquetes de supermercados, resultado de exame de saúde e o quanto o sujeito encontrar nas lojas ou lixeiras.
Música pode ser escape de moto envenenada, apito de guarda, barulhos típicos dos sanitários, tosses, espirros e demais sons do lar, do bar e da rua. Basta gravar tudo isso, em ordem aleatória, e Danto a classificará de Arte. Arte é, agora, o que qualquer um chamar de arte.
Ah! Se isso fosse apenas uma piada de Arthur C. Danto! Mas se trata de um filósofo respeitável, que se tornou crítico de arte depois que encontrou num museu, como obra de arte, um pacote de lã de aço, destes que se vendem em todos os supermercados, assinado por Warhol.
Quando Arthur Danto, depois de mergulhar na arte produzida na década de 60, especialmente a do seu herói Warhol, desistiu de procurar uma definição para a arte e, entrevistado diz: “Uma definição filosófica da arte não poderia excluir nada”. A arte estava liberada da história da arte, era o que eu sentia. A entrevista toda dá a entender que ele fala dirigindo-se às artes plásticas, porque não há exemplos nem citação das outras artes, embora todo o seu raciocínio abarque todas as manifestações artísticas.
Sua tese se refere ao que nós, seres humanos, até certo ponto racionais, entendemos como Arte e História da Arte. Ele elimina, de um só golpe, uma disciplina filosófica, a Estética (a Filosofia da Arte) e as teorias essencialistas, estético-filosóficas, institucionais, simbólica de Goodman, estudadas e questionadas por Célia Teixeira. No máximo, se aproxima das teorias da indefinibilidade.
Esses livros de Francis Fukuyama e Arthur C. Danto fazem furor no mundo acadêmico de hoje e nos não-artistas, que querem uma justificativa para o fato de aquilo que fazem não desperte qualquer emoção nos seres humanos. Os artistas verdadeiros, que deixaram a insegurança na adolescência, estes estão por demais ocupados em criar em suas grandes obras, e não têm tempo para ler as teses sobre o fim da Arte e o fim da História. Basta-lhes o fim do dia.
Em certo trecho de sua entrevista, Arthur Danto confessa que o seu interesse na arte dirige-se mais ao sentido do que à forma, distanciando-se de Aristóteles, para o qual o objetivo da arte está em si mesma, seu objetivo é puramente estético (Platão pensa o contrário). O todo poderoso Lessing fica a meio caminho: “A beleza é a única finalidade do artista, mas nem por isso a arte deve ser autotélica.” Nessas coisas estou com o paripatético Aristóteles.
@ Ilustração de Bueno
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